11 de agosto de 2003
Eu, você, Stanislaw e Cartola...

Quase pinguei colirio no café... E acredite, leitor, acho santos esses lapsos. A mente indo longe no aconchego da ação mecânica do corpo que continua funcionando enquanto a mente vagueia... Claro, às vezes acontece do corpo distrair-se um pouco com os passeios da mente e confundir adoçante e colírio, mas aí é a vez da mente parceira advertir o corpo que logo se corrige e tudo volta a essa intensa calma em que alma e corpo, de tão distintos, parecem mais próximos do que nunca... Eu disse a alma? Disse... Mente, alma... Tanto faz... Que existe, existe. Se sobrevive ao corpo, é outra história... Mas como passeia...

Agora mesmo, por exemplo, fui ouvindo os sambas de Cartola e lembrando dele, meu Rimbaud com final feliz... Graças a Sérgio Porto, que só por isso, já merece o Céu do jeito que o concebesse, talvez como os bastidores de um teatro de revistas, com lindas coristas emplumadas circulando felizes, na excitação dos risos e aplausos...

A história de como Stanislaw Ponte Preta ressuscitou Cartola começa numa tarde qualquer de 1956, quando o jornalista Sérgio Porto tomava cafezinho num botequim e avistou o lavador de carros Agenor de Oliveira. Sei lá como, Stanislaw Ponte Preta, que vivia em Sérgio Porto, reconheceu em Agenor, Cartola - um dos fundadores da Mangueira, o homem que escolheu o nome e as cores míticas da escola (o verde-rosa que resumem a alvorada vista do alto do morro), compôs o primeiro samba-enredo que a Mangueira levou para a avenida, e muitos, muitos sambas que são obras-primas de poesia e música.

Cartola sumira das paradas já fazia quase 15 anos e muita gente já o dava mesmo como morto. E estava. Pelo menos Cartola estava. Sobrevivia Agenor lavando carros, quase certamente se dissolvendo em amargura, dor de amor preservada em álcool. Sérgio Porto, um sujeito que era tantos que acabou morrendo cedo, tratou de ajudar Agenor a ressuscitar Cartola. Conta a lenda que dali mesmo já partiram para arrumar um emprego no Estado para Agenor e espalhar por todas as rádios e jornais que Cartola estava vivo. E bem.

O sucesso nunca é o merecido. Levou sete anos para que Cartola finalmente gravasse seu primeiro disco, descobrisse seu amor final que foi Dona Zica e levantasse uma graninha melhor que lhe garantiu uma velhice digna. Mas tudo começou ali, naquela tarde fortuita de 1956, na praça General Osório, em Ipanema.

É tanto acaso que soa como fatalidade. É tão absurdamente frágil tudo (Agenor podia morrer a qualquer momento com a vida que levava e então nunca mais Cartola) que a gente sente-se obrigado a pensar que aquele encontro estava marcado desde o início do universo, que o mais fenomenal acaso acaba por ter o peso de uma fatalidade boa.

E que sejam dois personagens - sim, personagens! - Stanislaw e Cartola, acrescenta o toque insólito final. Dois personagens envolvidos na sempre grave missão do resgate, quando um homem faz-se anjo de outro, elevado para além de si pela generosidade. Tem gente que possui a volúpia de ser bom. Sérgio Porto, por tudo que ouço e leio dele, tinha esse dom, o prazer de ser generoso. Esses, levem a vida que levarem, são santos. Os verdadeiros santos.

Santos como são santos esses lapsos que nos conduzem mansamente pelas histórias que a memória guarda e a imaginação reconstrói inteira para os olhos acordados... O nome bonito disso é "devaneio".

Cartola segue cantando seus sambas baixinho, você prepara alguma coisa na cozinha, a tarde segue cinza em seu úmido silêncio. Estamos felizes, eu, você, Cartola, Stanislaw. Nossa felicidade silenciosamente umedece o mundo, que anda tão seco, tão duro...

Somos a tarde, somos este dia. Somos felizes.