1 de setembro de 2003
I=mc2

Sol - depois de dois ou três dias de chuvas. É uma benção. O céu continua nublado, mas já não pesa. E é domingo. Raro escrever assim, tão em cima da hora. As margaridas amarelas, nosso sol particular, se aconchegam na sombra de um canto. Não gostam de muito sol, disse o sujeito que as vendeu. Não entendo de flores nem de pássaros - e de quase tudo que se refira à natureza: entendo de dor de cabeça, gripe, novela, botafogo, julio cortázar, por agora, kubrick, os prodígios do café, os males do neoimperialismo americano. Enfim, minha paisagem é urbana e exclusivamente humana.

Mas disse o cara que as margaridas não gostam de sol direto o que muito me pareceu estranho. Margaridas sempre foram para mim pequenos girassóis. Girassóis de bolso. Não entendo margarida não gostar de sol.

Faria mais sentido para mim, ser "antropomorfizado", se o florista me dissesse que elas sobreviveriam melhor à sombra de um girassol, femininas margaridas, filhas ou amantes de um girassol. Era bem capaz que eu comprasse um vaso de girassol. Porque, para mim, homem que a tudo humaniza, que desconhece a linguagem dos pássaros e das flores, as margaridas são seres solares que brotam quase espontâneas no jardim. Para mim, ass margaridas dançam ao sol - como num desenho da Disney... E eu nem tive uma vida tão urbana assim... Faz tempo que não ando a cavalo, é verdade. É só carro, cinema, tv, cd, net e outras tantas letras e números. A natureza que há está adestrada, aprisionada, indefesa. Resta-nos o mar, o vento e as chuvas.

Às vezes, como agora, isso me espanta muito: a que ponto chegamos. E, mais ainda, a que ponto podemos chegar - com a digitalização que apenas começa. A genética e a física chegaram ao âmago da natureza ao mesmo tempo em que ela parece cada vez mais apagar-se da paisagem. Chegaremos ao ponto de duplicá-la, de recriá-la numa versão digital, hologramas de alta densidade gerados por um nanocomputador bio-lógico?

O gênero literário mais sedutor hoje em dia é a ficção científica.

Vivemos o tempo de passagem entre a decandência e o renascimento. O zurrado imperial de Bush é movido a petróleo. A "velha economia" resiste. Quer se apossar do futuro. Quer que uma tecnologia essencialmente descentralizadora se adeqüe ao caráter necessariamente centralizador do "velho modelo de negócio". Sabem que a luta está perdida, mas sabem quem quanto mais resistirem, mais chances terão de participar do futuro. Vale-se do ilusionismo financeiro e das armas.

Para quem gosta de história, recomendo voltar ao embate entre Nikolas Tesla e Thomas Edson. Os dois praticamente "inventaram" a eletrificação em massa que inaugura o século 20 e a tal civilização "anti-natural" de que falávamos há pouco, movida a motor à explosão e energia elétrica. Pela primeira vez, em cinco mil anos de história conhecida a energia empregada não era mais essencialmente muscular - humana ou animal. Não é pouca coisa. Tesla e Edson disputavam, alimentados por pesados investimentos privados, qual seria o "modelo de negócio" do programa "luz para as massas" que inventou o "mundo moderno". É dessa época a célebre polêmica entre "corrente alternada ou corrente contínua", vencida por Tesla, defensor da corrente alternada. Alternado lembra código binário, chave da digitalização. Não deve ser por acaso que Tesla já pesquisava naquela época a transmissão sem fio, o wireless de hoje em dia. Foi sua ruína. Descobriu que seria possível criar um certo tipo de antena que, usando a terra como dínamo, criaria um circuito capaz de captar (ou melhor seria dizer produzir?) energia do próprio planeta. Grosso modo, cada um poderia ter sua antena. Seria o fim da energia como negócio. Seria o fim do modelo centralizado, "com fio" de Edson e seus sócios.

Até onde entendi, Tesla já lidava com a idéia que pode ser resumida numa falsa equação em que o E de energia é substituído pelo I de informação: I=mc2. Informação é energia. Ou seja: é a qualidade da informação que move as coisas. Uma de suas "brincadeiras" era manter ligados motores por controle remoto. Hoje a Light e outras companhias de produção e distribuição de energia eletrica já têm tecnologia para transmitir dados por seus cabos. Estamos no limiar do "beneficiamento" da energia, da venda de "energia inteligente". Imagine agora a mesma coisa "sem fio"...

Edson venceu, Tesla morreu pobre, tido como louco. Demorou cinqüenta anos, o mundo voltou a seus inventos. Mas os donos do negócio ainda são os sócios de Edson. Um exemplo de embaters semelhantes, só pra encerrar, são Windows versus Linux, mp3 versus gravadoras, internet versus tv. A tecnologia é cada vez singularizante. O "modelo de negócio" é centralizado. De tanto zurrar, Bush vai levar o império à falência.