8 de setembro de 2003
Claviculário

Era um desses objetos sem nome preciso, "pendurador de objetos de cozinha" - abridor de garrafa, pano de prato e coisas assim. Tem a forma em miniatura de um rolo de abrir massas cortado ao meio no sentido do comprimento, com três ganchinhos cor de cobre encardido atarrachados na madeira desbotada de branco e decorada com descascados decalques do que suponho serem flores. Estava esquecido no fundo de uma gaveta - sem nome, sem função. Virou um claviculário. Não é pouca coisa.

"Claviculário" é uma das palavras mais bonitas que eu conheço.Soa uma imponência que parece desproporcional à função que exerce. Mal comparando, é como aqueles porteiros de hotel de filme, vestidos de marechal prussiano - que estão lá, não à espera de uma guerra, mas apenas para abrir e fechar portas . Não é bem assim.

Porteiros e claviculários são até entidades afins, mas, no arranjo lógico que os une, o claviculário precede o porteiro. No claviculário guardam-se as chaves das portas que o porteiro irá abrir. Logo, por mais humilde que seja o claviculário - como é o caso do meu - sua finalidade o reveste de nobre importância, sobretudo se entrou na vida de alguém que cansou de sair batendo a porta com as chaves esquecidas dentro de casa.

Agora, com o claviculário pregado na porta, é quase impossível esquecer de levá-las comigo ao sair. Meu claviculário é, portanto, como um porteiro que em vez de uniforme de marechal prussiano veste-se de sua própria sonoridade.

Também tenho um lustre de alabastro - outra palavra linda. É engraçado isso, ter uma casa decorada de palavras. Palavras enfeitam as coisas e as coisas enfeitam as casas. Faltava-me um balaústre - eu que gosto tanto de uma janela. Na verdade, de todas as palavras bonitas que me ocorrem a que mais me faz falta é "sótão". Não é uma palavra tão monumental como alabastro, claviculário ou balaústre. Dissílabos são, por natureza, discretos.

Mas o som de "sótão" parece produzir um salto: atira-se para o alto no "só" e mergulha de volta no "tão", como se traçasse no ar um "vê" invertido que mais parece o desenho de um... sotão! E não é só no risco sonoro que a palavra "sótão" se parece consigo mesma. Pois, com "sótão" também se faz "tão só". É para ficar "tão só" que quero um sótão no topo de uma casa. Porque não existe solidão melhor, mais completa, do que a do sotão.

Não é a úmida solidão dos porões, onde as coisas se esquecem, mas o luminoso e aconchegante recolhimento dos sótãos, onde as coisas se guardam. Ninguém está de fato sozinho em um sótão. Lá embaixo, a vida da casa transcorre, cotidiana, fácil e silenciosa. Pode-se ouvi-la, pode-se vê-la da janela. Da cozinha, como agora, vem o cheiro de canela e açucar queimado: tão só, mas não sozinho - assim é bom. Mais do que bom: clavicular.Solidão feita de recolhimento e não de isolamento. De calma, não de rancor. De saciedade e não de inveja.

Essa solidão, a solidão boa, eu tenho. Sem você, essa solidão seria impossível. O sótão nem falta faz.