13 de outubro de 2003
Felicidade canina

Suponho que fossem macho e fêmea. Vizinhos de prédio. Encontraram-se durante o passeio noturno de cada um, lá pelas dez, depois da novela, quando suas empregadas os levam para uma última voltinha.

São dois poodles brancos e, de tão cômica, chega a ser comovente a felicidade deles quando se encontram. Seres humanos não são capazes de tamanha felicidade... Imagine se, ao te ver, eu começasse a espalhar urina por postes e canteiros e a dar saltos acrobáticos na calçada - te cheirando e te lambendo, aos gritos e gemidos?

Carlos Heitor Cony disse numa entrevista que nunca vira em olhos humanos um amor tão devotado e incondicional quanto o que via nos olhos de sua cadela. Imagino que sejam macho e fêmea porque enquanto um se devota a uma louca dança nupcial, o outro permance mais ou menos imóvel, mas ansioso e vacilante.

Os uivos dos dois ecoam pela rua noite vazia e ainda úmida de uma chuva que ameaça retornar em nuvens baixas que se avolumam e se dispersam ao sabor do vento incerto que resulta do encontro das massas frias e quentes que embocam e desembocam no Rio. É só acompanhar num desses mapas de tempo: o Rio é exatamente "onde o vento faz a curva" para entrar em direção à Amazônia, passando pelo Planalto Central. Um duto por onde sobem e descem as torrentes de nuvem que inventam isso que a gente chama de "clima".

(Acho que já contei aqui que um dos meus prazeres na Internet é acompanhar esses mapas de tempo. Adoro essa idéia de câmeras espalhadas ao acaso pelo mundo. Quem viu "Cortina de fumaça", o filme de Paul Auster, lembra do sujeito que todo dia colocava a câmera no mesmo lugar, no mesmo horário, e batia uma foto. Só uma. A idéia é a mesma. Poder ser uma esquina de Nova York, São Paulo, Dili ou o fluxo das nuvens no céu. São flagrantes do mundo pescados ao acaso de quem navega...)

Mas falávamos da felicidade canina de dois poodles... Enfim, que felicidade! Definitivamente, inumana. Não, não me lamento. Gosto de ser gente. Um abraço. Um beijo. Palavras. Mãos dadas. Gosto do meu repertório humano. Poodles não escrevem poemas nem cartas de amor. Urinam nos postes, para deleite de suas eleitas e aviso para os rivais. Talvez também saibam se amar em silêncio, como parecem saber os gatos... Não sei.

Ruidosa felicidade canina. Se fossem feras, seria de assustar a fúria natural a que se entregam. Mas são poodles tosqueados presos em coleiras - o que faz de sua felicidade um inofensivo espetáculo circense.

Nós rimos. Por dentro, minha alma dá saltos. À mesa, permaneço um gentleman. Deixo que, na nudez da cama, corpo e alma se juntem. Esperamos, de mãos dadas na varanda, rindo - dos poodles.