17 de novembro de 2003
Cadeias ou escolas?

O céu nublado esconde a hora que só o silêncio permite intuir. É cedo, muito cedo. Faço um café, fumo o primeiro de muitos cigarros e sento-me para escrever esta crônica. Vasculho a Internet, os arquivos, a memória, mas só um tema se impõe, desde quarta-feira à noite: a entrevista que foi ao ar com o pai da menina assassinada junto com o namorado, em São Paulo. "Onde esse cara deveria estar?", pergunta a certa altura o pai, o rosto transtornado em close, sobre o assassino de sua filha, um garoto da mesma idade que ela, mas já um notório bandido com várias passagens pela Febem paulista.

Tento escapar do assunto, mas a impressão que tenho é que até o dia está de luto, fechado em silêncio e cinza. "Onde esse cara deveria estar?", a pergunta me ressoa na cabeça desde àquela noite. Porque a resposta é óbvia. Na verdade, o que indigna o pai da moça é que um sujeito tão perigoso estivesse solto nas ruas. Ele deveria estar na cadeia. Mas estava solto.

Cadeia, hospício ou cemitério tem sido o destino prematuro de jovens brasileiros que deveriam estar na escola ou ter passado por ela. Nunca votei em Brizola, mas só uma coisa me faz às vezes lamentar não tê-lo feito: Brizola foi o único político que, nos últimos vinte anos, criou um programa de educação de massas. Não falo de bolsa disto ou daquilo, falo de escola, de escola mesmo.

Os Cieps podiam ter mil defeitos, mas bastava-lhes o mérito de buscar uma solução de emergência para um problema que há vinte anos já parecia gravíssimo: a educação pública.

A idéia de colocar as crianças de oito da manhã às seis da noite em uma escola em que elas receberiam comida, tratamento médico e conhecimento era a óbvia quimera erguida em concreto armado e multiplicada a partir do projeto genialmente simples de Oscar Niemeyer. Chegou-se a construir "fábricas de escolas" que se espalhariam, primeiro pelo Rio, depois, pelo Brasil inteiro.

Mas a sempre estúpida vaidade dos adversários, seus interesses político-pessoais, levaram o projeto dos Cieps à falência. Nada, ou muito pouco, foi aproveitado. Ninguém pensou em corrigir seus defeitos e aprimorar suas qualidades. A hipótese de que o sucesso dos Cieps seria o caminho aberto para levar Brizola à presidência da República foi suficiente para que destruíssem o projeto, o único projeto, repito, de educação de massas criado nos últimos vinte anos no Brasil. Tivesse vingado, o País hoje seria certamente outro. Perdemos, perdemos todos. Os que derrotaram o projeto ainda estão aí, usufruindo da ignorância que ajudaram a tornar o produto mais bem distribuído que a sociedade oferece a seus cidadãos.

Como uma espécie de compensação perversa à falta de escolas públicas, criou-se uma legislação que dá aos meninos abandonados nas ruas em total desamparo a condição de anjos, versões urbanas do "bom selavagem" de Rousseau. Até completar 18 anos, qualquer brasileiro é uma máquina impune de matar e roubar.

Está na cara: o Brasil apodrece. Quem lhe olha a casca não percebe o verme que o corrói por dentro. Pouco importa a economia, a política - é a alma do País que apodrece. Lula ainda é uma esperança, mas é a última.

Ainda há tempo. Sempre há, porque só o presente existe. É preciso, é urgente, ressuscitar os Cieps - o projeto de uma escola que eduque, alimente e trate das crianças para fazer delas adultos conscientes de sua condição humana. Nem animais, nem anjos. Seres humanos. Escolas - o Brasil precisa de escolas. de escolas que brotem do chão, da noite pro dia, como cogumelos. Até que não haja mais uma criança nas ruas - com fome, com frio, aprendendo apenas o ódio como fórmula de sobrevivência. Ou então que se façam mais cadeias, mais hospícios e mais cemitérios e se estenda aos brasileiros de todas as idades o Estatuto do Menor e a Lei de Proteção aos Animais. Seremos todos animais menores.