15 de dezembro de 2003
O rinoceronte na sala

Eu também senti depressão estes dias. Você é mais nova, mas acho que não faz diferença, a depressão pega a gente lá na origem e vem retalhando, cortando, tranchando até não sobrar nada só uma carnificina. A causa da minha depressão pode parecer até prosaica: parei de fumar.

Certamente, fazia parte da crise de abstinência aquela tristeza abissal que lançava sobre o passado um olhar implacável e concluía pelo fracasso irremediável e previsível desde o útero até os dias que ainda restam. Zero. Nada. Inexato. Inábil. Incapaz. Yin. Sempre quase e, portanto, nunca. Fake, falho, manco. Errante. Cego. Ridículo. Doía de dar vontade de chorar.

Dane-se que isso seja a vida, que ninguém, rico ou pobre, escape incólume do esforço de ser alguém, a ridícula resistência que opomos à evidente falta de sentido e que se resume na pantomima do eu e seus discursos sobre fracassos e conquistas, essa máscara de retalhos velhos, esse sorridente monte de estrume. Que se dane se isso é ou não é da condição humana, da humanidade inteira. Isso tem sido você até hoje e continuará sendo até o fim - me diz a depressão. Me diz e me põe na frente dos olhos as postas de carne ainda viva. OK, essa tristeza tinha uma causa física.

Era uma espécie de delírio provocado pela falta de nicotina. Crise de abstinência. Mas tudo que eu via era verdade. Eu errei, fracassei, fugi, dancei, menti, vacilei, perdi. Onde eu me apegava era no seguinte: e daí? Meu tempo é hoje. Eu percebia que a depressão tinha causas físicas e que, por outro lado, aquele "estado de alma" era uma espécie de megalomania às avessas que amplificava meus erros, coisa, claro, de quem se pretende o máximo, e ao descobrir que não pode ser o máximo, quer ao menos ser o mínimo.

Enfim, uma ânsia de exclusividade. Não, nem máximo, nem mínimo. Uma vírgula num texto de Shakespeare. Um tijolo de catedral, um caco do vitral. É o que somos, quase sempre. Nem o Esteves sem metafísica, nem um Álvaro de Campos sem versos. Por falar em versos, lembrei de uns agora, muito velhos. Vê se você gosta:

Dêem-me jeans, a car and dreams.
Love and live me alone.
Say seus olhos insones.
De james dean, sempre tão yin,
sempre tão young
.

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Pode soar cabotino, mas dane-se. Morri de rir com a capa do Prosa & Verso, a Clarah e o Cuenca em fotos enormes. "Céticos e desiludidos Clarah, Cuenca e Daniel sobrevivem à literatura". Ri porque O Globo faz matéria com eles e não diz que eles são cronistas, que eles podem ser lidos todas as semanas, claro, em outro jornal... Então os leitores não deveriam saber que eles são cronistas também? Isso é "jornalismo"? Bom, pelas boas regras do marketing que regem tudo agora, está mais do que certo, não vai vender o jornal dos outros...

Mas, "céticos e desiludidos"? Sei não, João Ximenes... Eu diria simplesmente: duros e putos. Porque os jornalões fazem matérias com eles, mas não os contratam para escrever. E não os contratam para escrever porque o espaço da crônica nos jornalões está tomado por jornalistas que não sabem escrever crônicas. Por jornalistas e acadêmicos de todo tipo. É a ditadura do diploma. Só que a farra acabou. Não é mais necessário diploma para ser contratado jornalista. Agora para ser jornalista só é preciso saber escrever. Coisa mais rara do que se pensa e que nenhuma faculdade ensina. Céticos e desiludidos eles ficam, João, quando vêem os textos que criam em seus blogs e sites serem "copiados" depois pelos coleguinhas dos jornalões...

* * *

Uma dessas tolices que preenchem a vida e os espaços em branco dos jornais é discutir o valor de Caetano, Gil e Chico - o quanto valem, quem é melhor, etc. Não vou dizer que cada um intimamente não tenha lá suas preferências, sua escala de uma a três, que, aliás, se o sujeito é de fato humano, deve variar em altos e baixos abruptos e passionais. Eu já odiei o Caetano, já o achei um babaca várias vezes e nunca deixei de gostar dele. Mas entre as coisas que Caetano já meu deu, o que mais gosto de usar é esse "Ou não" no fim de certas frases que se queriam definitivas. É sempre bom lembrar que tudo pode ser ou não ser. Tudo está atravessado pela contingência. Definitivo, parece, nem a morte.