22 de março de 2004
Divinos e maravilhosos

Tenho uma amiga professora de redação que usa minhas crônicas em suas aulas. A última, sobre o tempo cada vez mais curto, fez sucesso entre seus alunos, a ponto de alguns me escreverem. A primeira foi a Elidiane. Ela tem 20 anos, trabalha e estuda em São Paulo, capital. Foi passar as férias na Bahia e descobriu que lá o efeito Schummann não atua: tudo é muito lento.

Pois é, Elidiane, a Bahia é outro mundo... O Rio mesmo, em alguns lugares e certos dias, anda mais devagar que o resto. Naturalizar-se baiano ou carioca pode ser uma solução.

Agora,em presidentes, acho que você concorda que já não dá mais para acreditar. Não tenho certeza, mas se aquela tal faixa presidencial passa tampando o coração isso então explica muita coisa...

Quanto ao tempo, parece que ele não está só mais devagar - ele está mesmo é acabando... Você não viu o planeta que descobriram semana passada, o Sedna? Dizem os esotéricos que ele é o anúncio do "fim dos tempos"... E você quer saber? Tomara...
Porque, se você reparar bem, esse "nosso" mundo já acabou... Eu olho a minha volta e lembro de um verso de Fernando Pessoa: "cadáveres adiados que procriam"...

Você mesma percebe isso quando diz que passa horas todo dia num engarrafamento onde uma parte das pessoas (repare) está fechada sozinha em bolhas de metal e vidro onde caberiam pelo menos mais três, enquanto outras estão apinhadas em bolhas maiores, e uns e outros só são capazes de compartilhar essa rancorosa imobilidade.

Você mesma falou que perde horas do seu dia confinada em um cubículo "vendendo minha força de trabalho", e depois mais outras tantas horas bombardeada por informações inúteis que você paga para ouvir em troca de um diploma - na ilusão de, quem sabe, no futuro, comprar sua exclusiva bolha de metal e vidro e conseguir vender-se em um cubículo maior...
E chamam isso de vida...

A vida é algo mais parecido com essa Bahia e esse Rio míticos ou folclóricos (depende do olhar) onde ninguém tem pressa e há sempre um jeitinho pra tudo. Porque a vida, ninguém nos diz isto porque esta é a única verdade que importa, a vida é imortal. E quem é imortal não tem pressa, Elidiane.

Nisso que eles chamam de "nossa vida", as pessoas morrem, sim - apenas porque acreditam na morte. E acreditam na morte como solução: elas morrem com gosto - de tédio, de frustração, de culpa, de rancor, de inveja. Morrem porque ninguém nunca lhes diz que elas são (todas sem exceção) divinas e maravilhosas. Ninguém lhes diz que não é preciso ter pressa e que para tudo há um jeito...

E não dizem por um motivo muito simples: gente feliz não consome. Não vota pra presidente. Não precisa de patrão. Gente feliz (ou imortal: dá no mesmo) come pouco e só morre quando quer. Pois é, agora parece que esse tal planeta... Tem gente que acredita, tem gente que não acredita. Eu torço - torço para que sobrem só os pobres de espírito - porque eles verão a Deus.

E você, Elidiane, aproveite - a Bahia te deu régua e compasso. Já está na hora de você dizer pra São Paulo: "aquele abraço".