29 de março de 2004
Insônia

00:27. Hora de criança dormir. Hora de criança mergulhar na insônia. Resignadamente. Hora de ouvir o silêncio. Hora de contar carneirinhos negros que da escuridão saltam no sem fundo. Hora de deslizar na lama da memória até concluir que não há saída - que nunca houve - que desde o início sempre foi tarde demais. Hora de congelar as horas até que amanheça. Horas mortas. Natimortas. Empilhadas na vala comum da insônia. Quanto tempo faz? Uma hora. Dez anos. 40.

01:40. Pensou ter pregado o olho. Gosta da expressão: pregar o olho. É o que pensa fazer quando quer parecer mórbido para si mesmo: pregar os olhos com o grampeador. Mais chocante que a cena inicial de "O cão andaluz". "Dormiria de olhos pregados?", pensa, os olhos pregados no teto. Pensa uma sala de olhos que pendem do teto, como em "Blade Runner". "Essas memórias são minhas?" "Eu sou esse mesmo que lembro?" - ele pensa, os olhos pregados no teto.

02:10. Verifica as olheiras no espelho do banheiro. Lusco-fusco. Não precisa acender a luz para se ver. O vizinho de cima só dorme de luz acesa. O vizinho dorme. Verifica as olheiras. A cara de sono. Vai ficar pior amanhã se não dormir logo. Dormir é uma função fisiológica. Já nem sonha mais. Se contenta em ter pesadelos acordado até apagar. Sem sonhos. Dormir como uma pedra. E acordar com o despertador. Colocá-lo para tocar às 08:10. Assim mesmo vai chegar atrasado.

03:02. Sente as pálpebras pesarem. Sente os olhos arderem e doerem por dentro, do outro lado, fundo. Os olhos em suas órbitas - fixas. Imóveis. Os carros passam lá fora, intermitentes, longínquos. Como sabe que são carros? Intrigante. Como sabe que são carros, não se apavora. Onde estará você agora? Quem é você? Você agora são tantas, são todas. Quantas são todas agora? "Você sabe que está pegando no sono quando começa a pensar estúpido...", pensa. A estupidez o tranqüiliza... "Bem-aventurados os estupidificados pela insônia porque eles dormirão tranqüilos..." Como pedras, como deuses mortos...

04:23. Levanta para mijar. Está ficando velho. Dormiu, mas tem a impressão que sonhou que não conseguia dormir. Ou não dormiu? Volta para a cama. Metal estala no banheiro. Faróis passam no teto. Sente medo. Criança tem medo de fantasmas. Gente tem medo de gente. Gente tem medo de solidão.

05:11. Sonhou. Ladrões assaltavam uma estação de metrô no Brasil que parecia NY. Ele se jogava no chão. Ele se arrastava no chão como uma criança brincando de soldado. Ele se arrastava no chão. Quando se dá conta está aos pés de um outro bandido armado. O bandido o olha com desprezo. Ele está paralisado de pânico. O bandido aponta a arma para a sua cabeça. Ele acorda. Os olhos bem abertos. Quer chorar e o choro é só uma ardência nos olhos. Quer falar e a voz é só um aperto no peito. Quer nem sabe o quê e não tem ninguém em casa.

05:22. Não consegue dormir. Levanta-se cheio de decisão e coragem. Passa as trancas nas portas da rua. Tira documentos da carteira. Deita. Reza.

05:30. Está chorando. Lágrimas escassas.

05:58. Os primeiros pássaros. As primeiras luzes do amanhecer. O cheiro do pão. Um ar mais frio que vem pelas frestas. Melhor não dormir mais. Ou vai dormir como uma pedra. E vai chegar atrasado. Ou não vai ouvir o despertador.

06:10. Melhor dormir. Só mais duas horas. Uma hora e cinqüenta, se dormir em dez minutos. Concentra-se. Já é quase dia.

06:17. Melhor levantar de uma vez. O corpo dói. A cabeça pesa. Ele não pensa em nada. Abre ao acaso um livro que está ao lado da cama: "Ouço vozes. Não são anjos/ nem tampouco são demônios:/ sou eu que me escuto ao longe/ do fundo dos meus escombros." **

06:30. Levanta-se decidido. Escova os dentes. Toma banho. Veste-se. Tudo muito lentamente - para que o tempo passe sem doer.

07:43. Ele está pronto. Ele não tem mais nada a fazer para matar o tempo. Sai. Vai tomar café na rua.

08:10. O despertador toca no vazio.
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** Melhores poemas de Ivan Junqueira, editora Global.