12 de abril de 2004
O Olho

"ERA PRECISO INVENTAR UMA HISTÓRIA..."

...Sob o liso do vidro corre a rua... os olhos asssistindo os olhos assistindo (na volta do reflexo) imagem transparente atravesssada pela rua que o movimento do ônibuss inventa janela recortando os ezatos ssegundoss de um gessto qualquer e humano sucessssão de esses sem nenhuma causa a não ser os olhos asssistindo os olhos assistindo apaixonadamente enquanto o ACASO - o outro do essspelho: a rua - me perdoa...

VIAJO
              vi ajo vendo só vendo
                                              do de dentro do ônibus: o assento maiss essterior estando dentro, esstremo opossto ao motorissta, à essquerda de quem entra, de frente para o trocador de perfil: O PONTO MAIS OBSCURO, obsceno covil azul de curvin e fórmica: o lugar onde (quase) ninguém TV
                                            e
                                               NO LIMITE DA VERTIGEM
                                                                                  a sssssenssssssação de ssssser um olho enorme peixe-olho pairando na água abssstraída do incômodo motorrrrrrrrrr rrrrrrrumorrrrrrrrr transssslímpido na água de arrrr imóvel que a assão sssssúbita do ssssol esstilhasssa em polida ssssuperfíssie de esstrela fria
espelhOOlho purOOuro
                                 CEGO:
                                             O IN (DI) (VI) ZÍVEL alcansssado pela disssoLUZsão DA CARNE.

(Cego, sem ego, o que serei E/oU?
Multiplicado e/ou repartido?
Cego e/ou tudo vendo?
Édipo e/ou Prometeu?
Errante e/ou acorrentado?

Porque, afinal, quem assiste?
E existe o que se assiste?
Essa a dor infinita de Deus?)

"TUDO É CINEMA!": foi o que Mônica disse depois de fumar seu primeiro baseado... Tudo é cinema: uma idéia na mão, uma câmera na cabeça...

Os olhos - de vidro: quem tem medo, não chora.

VIAJO.
                Era preciso inventar uma história:
                                                                   " ... desafiando (vi) (cri) aturas cruzo o espaço ficcional do DRAMA: saí para comprar cigarros e posso não voltar "nunca maishhh" - você me dizzz - "nunca maisshshshs": ácida efervessênssia me ulsssssserando o dezejo - impressssão ezata de que não ezisto: os OLHOS brilhantes e quentes pulsando dentro apenas olhos pulsando o coração nos olhos pulsando vidrados vibrando na batida da matéria desconhecida gente, corpo luminoso da rua, fLUXo incessante do universo inteiro: O INFINITO numa rua onde desconheço fim e começo

VIAJO: só e sem palavras: sólido.

(Sim, era preciso inventar uma história. Aprender a depurar a dor para não mais transmití-la. Construir, enfim, a catedral onde tu virás descansar teus sonhos de morta. Dar-te finalmente um nome, e assim transmutar a miséria em poderosa força que resgate o verbo em seu vigor. Idéia nova que é desejo de reconciliação com a carne e que me veio através de ti, meu corpo...)

VIAJO: sou luz, sou pedra.
A luz é cega, a pedra, sólida.
Estou só,
Mas há a rua,
Rio que flui feito escultura móvel
E se desdobra sempre nova, nova..

(Falta-me vida - ou será que tudo se passa aqui, dentro,
no escuro dos olhos - sob a luminosidade dos sonhos?)