31 de maio de 2004
A favor do Tibete

Marte é a China. Basta ver os cartões postais que uns robôs de férias por Marte andaram nos mandando: aquilo é só um deserto poeirento tipo Paris, texas. A China, sim, é o verdadeiro planeta vermelho.

Um outro mundo. Há a evidente muralha da língua. Lá se fala e escreve de um modo tão distinto que quanto mais perto se chega, mais distante se fica, porque mais clara vão se tornando as diferenças: é outra lógica, outra sabedoria, outra ciência.
Um brasileiro na China, lá num daqueles cantões onde a modernidade avança com menos ferocidade, ao lado de um chinês, sozinho e sem intérprete, é a imagem cômica do intrasponível.

Basta, para mostrar o contraste, dizer que o Brasil é talvez a maior unidade linguística da história da humanidade: nunca antes tantos falaram e escreveram a mesma língua em um território contínuo tão grande. Já a China disputa com a Índia o título de maior quantidade de línguas por metro quadrado.
A graça da China, enfim, está em sua estranheza. Porque no que ela tem de ocidental é um desastre.

Sua economia, talvez por conta do passado marxista, aplica com eficiência o método de acumulação de capital testado e aprovado na Inglaterra do século 19: salários irrisórios, jornadas de 12, 14horas, sem folgas, férias, fundos, licenças, direitos. Nada. O controle do câmbio faz o resto, criando produtos baratos e altamente rentáveis.

Em termos políticos é uma ditadurazinha de quinta, explícita e orgulhosa. Nenhuma novidade: a China sempre teve governos autoritários desde que o mundo é mundo. É consenso que, num regime mais brando, a China imperial acabaria rapidamente por se dividir, no mínimo, em províncias mais autônomas. Esse, aliás, o grande impasse futuro da China: economia de mercado exige liberdade. Liberdade significa descentralização. Descentralização significa divisão. A antiga União Soviética é o exemplo.

Por isso, é precipitada a adesão pública do Brasil à tese de "Uma só China". Pelo óbvio motivo que Taiwan e o Tibete não são o mesmo. A ilha de Taiwan foi onde se refugiou Chiang Kai Shek quando Mao o expulsou do continente. Taiwan sustentou-se no mapa como uma invenção que o Ocidente impôs a Mao. Mais dia menos dia, o Ocidente pragmaticamente declarará que Taiwan é uma ficção, um anacrônico delírio. Como o progresso da China, os próprios taiwaneses acabarão votando pela reunificação.

O Tibete é outra história. O Tibete é um estado religioso mais antigo que o Vaticano. Se amanhã o Berlusconi cismar de invadir o Vaticano e tratar a igreja como uma multinacional italiana feito a Fiat, seria o equivalente ocidental da invasão do Tibete pela China. O Dalai-Lama é um Papa no exílio.
Não parece improvável que a invasão do Tibete tenha acontecido também como uma resposta ao apoio ocidental a Taiwan.

Tudo bem, estamos loucos para fazer negócios da China, mas apoiar a ocupação do Tibete em troca de um vago apoio da China às pretensões brasileiras na ONU me pareceu uma grosseira demonstração de fraqueza, tipo o Vampeta rolando pela rampa do Planalto na volta do tetra.

Pior foi o ex-presidente da Embrafilme e atual ministro das Relações Exteriores tentando nos convencer que a tal vaguidão era "estilo chinês". Estilo chinês, doutor Amorim, quem tem é vaso.