7 de junho de 2004
"Onde estará Gin a esta hora?"

Frio úmido de chuva tamborilando no mármore da janela e efervescendo no asfalto à passagem dos carros, raros a esta hora em que tudo que é vivente  procura o aconchego do escuro e se ensimesma no silêncio que se redobra, paradoxal.

E, eu - cansado, mas insone, exausto, mas aceso – eu tamborilo no teclado o intermitente gotejar de letras  que se querem musicais, na busca da melodia de um sentido que dê rumo a esta crônica...

Muito tarde para isto, leitor, muito pouco tempo. Deixemos que o texto corra por si mesmo, como a chuva corre na sarjeta...

"Trompe d’oeil": em que direção corre a chuva que escorre pelo meio-fio afora, água que, sob a luz dos postes, parece que sobe e desce ao mesmo tempo, simultânea a si mesma, fluxo incessante abolindo o  tempo aos  olhos atônitos e deslumbrados do cronista insone que à natureza  implorara um tema.

"Toma!" - e ela me atira de volta o pedido. Então, eu insolente pergunto ao tempo abolido, escultura móvel da eternidade: onde estará Gin Elseman, se ainda habita em mim tão viva como em uma noite há vinte e três  anos se fecho meus olhos agora? Onde estará a menina que a pontualidade dos trens devolveu ao desamparo das ruas de Paris com todos os seus quartos ocupados, "tout complet, monsieur", à exceção de uma mansarda do hotel Trianon, na rue de Vaugirard - a única cama de casal disponível em Paris naquela noite  chuvosa de setembro - uma noite como tantas outras, uma noite como esta.

"Onde estará Gin a esta hora?" - pergunta que me acompanha há anos, desde que o frágil elo das cartas escritas em um inglês insuficiente para traduzir tudo partiu, partiu-se: perdemos contato, a não ser por esse ponto muito vivo que em mim às vezes se acende quando me aflige a necessidade de pensar algo bom, algo que eu gostaria de viver de novo, mas de um modo sutilmente diferente, como dois atores que repetissem uma cena.

(Hoje me surpreende que o menino e a menina tenham sido tão íntimos)

"Onde estará Gin a esta hora?" - eu me perguntava, no livro nunca publicado que resultou dessa viagem.  Eu e Gin - tão sincrônicos no mais improvável dos encontros: dividir a única cama de casal da cidade com um desconhecido que nem fala a sua língua.

"Onde estará Gin a esta hora?"; eu me pergunto agora, sem nenhum traço de dor ou sequer de saudade, mas com a viva curiosidade de um amante. Terá guardado cartas,  fotos, cartões (como eu, que as tenho falsamente jogadas em algum canto)?  Lembrará de mim às vezes como eu lembro? E, será, no mesmo instante que eu aqui? Nunca saberemos.

Nunca? Nem essa segurança temos. Ainda bem.

"Onde estará Gin a esta hora?" - nem o Google sabe.