21 de junho de 2004
Bloomsday

Súbito estado de tranquilidade: o silêncio no olho do furacão - onde não venta, onde as coisas expõem o que lhes cabe de eternidade. Tudo parece morto, tudo parece estranhamente vivo. Tudo quieto como numa natureza morta de van Gogh.
Amor, sexo, perversão, desejo, destino: "Onde esta a alma?", pergunta o corpo atormentado. O que é a alma? A alma existe ou é efeito de um intelecto muito fértil que a inventa para nomear suas angústias e paixões sempre inexplicáveis?

Não sabe. Agora, no olho do furacão, diria que sim, que existe a alma - e achando muito pouco dizer isto, imagina o corpo como um filtro de uma energia muito forte (a vida?) que por ele se depura - e perdura. Talvez viver seja ir inventando uma alma - ou da alma ir se inventando neste corpo, consciências que aderem à vida para mantê-la...

Especular sobre a alma é um pouco como fazer a barba: deve-se olhar atentamente para si mesmo. Melhor, no entanto, não pensar demais - está no olho do furacão. "O mundo me comove", diz, de si para si, perplexo com a beleza, brutal e sem sentido, que enxerga.

"Vai passar, está passando... Logo o mundo retornará à morna condição que o encobre sob a rede anestésica das palavras: a árvore voltará a ser apenas "árvore" - e o "mundo" seguirá assim suspenso."

(A beleza é a primeira qualidade que nos abandona depois que nos tornamos um pedaço de carne viva transbordando de malícia. Como são feios os humanos, adiposos e pesados, a cabeça repleta de clichês.
Você olha pra ela e pensa que em algum lugar desse corpo deve estar guardado um clipes...
"Sim, senhor...". "Não, senhor...": delibera-se. Quando, na verdade, tanto faz!)

"Vou eternizar o dia que te conheci". 16 de junho. O que mais pode um poeta prometer à sua musa? Bloomsday: 16 de junho de 1904 - fez cem anos que James Joyce saiu pela primeira vez com Nora Barnacle. Primeiro encontro: ele, 22. Ela, 20. Nunca mais se largaram - e enfrentaram a loucura, a miséria, o êxtase. É nesse dia que acontece "Ulisses", é nesse dia que, entre outras coisas, Leopold Bloom vagueia por Dublin enquanto espera que Molly Bloom, sua mulher, goze com o amante. Entre outras coisas.

Joyce é uma figura comovente. Sua convicção de quem era e o que tinha de fazer é impressionante: Joyce nunca duvidou que era Joyce. Ainda que ele nunca tenha deixado de ser um irlandês exilado vagando sem dinheiro pela Europa sabia que de alguma forma obscura era Homero, Dante, Shakespeare, Cervantes. Sempre soube, nunca duvidou.

(Eu praticamente só "li" Joyce (e Kafka) "em" Cortázar. Por mero acaso, comprei num sebo por dez reais uma pequena biografia de Joyce dias antes de você me lembrar que era Bloomsday.)

Você. Os furacões ganham nome de mulher. Você, o que é? Tão linda, tão frágil que até parece irreal. Um anjo. O olho do furacão.

Joyce é intraduzível. (E você, é intraduzível?). O poder encantatório das palavras. (Cuidado, dizer "Vocé escreve bem" pode ser um insulto). "Cuidado! Palavras." (Podia ser uma placa no caminho).

Você: fabulosa.