28 de junho de 2004
No alto do morro

"Essa rua vai dar aonde?". Ao ouvir a pergunta, a mulata pára na curva da ladeira, que um pouco abaixo trocara o pavimento de paralelepípedo por uma mistura de cimento e brita, e olha o sujeito que avança ofegante com um olhar de curiosidade hostil, como se na pergunta estivesse escondida alguma forma de ironia.

 "Vai dar no Morro Azul", ela responde. E completa, desconfiada: "O senhor não sabia?". Não, não sabia. Morava nas redondezas há mais de 40 anos e não sabia. Nunca havia subido a ruazinha aos pés do morro cortado para dar lugar à avenida que, ladeada por altos paredões de pedra, mais parece um túnel a céu aberto. Desde menino, o impressionavam esses paredões de pedra bruta, visivelmente marcados por explosões e golpes de picareta que testemunham a força e a obstinação humana contra os obstáculos da natureza.

"Vai subir?". Não havia desafio na voz da moça, mas preocupação. De longe, ela parecia uma colegial; de perto, via-se uma mulher com a aparência um pouco mais velha do que seu corpo permitia supor. Finas rugas começavam a desenhar em seu rosto a máscara de tensão e tristeza que acabará talvez por se tornar sua face madura. Mas havia bondade nos seus olhos.

"Por quê? É perigoso?". Ele sabia que a resposta seria inevitavelmente  "sim", mas continuara avançando. A vaga sombra de uma morte estúpida e equívoca, como tantas que acontecem diariamente na cidade, pesou-lhe sobre as pálpebras, mas o corpo estava quente demais para tremer. Uma angústia apertou-lhe o coração, primeira manifestação do medo, que ele resolveu ignorar, por orgulho e por preguiça de descer tudo de volta.

"A esta hora não.", ela respondeu. E passaram a caminhar lado a lado até o topo do morro, quando a rua tornava-se plana por uns tantos metros, antes de dobrar-se de novo em direção ao outro lado.

"Eu levo o senhor até lá" - ela insistia em chamá-lo de senhor.

As casas beiravam a rua, paredes de tijolo sem pintura. Eram casas rústicas, mal-acabadas, de uma pobreza que escapara da miséria com muita luta e se erguia com improvisada dignidade no alto do morro.

"Onde vai dar?". Os vizinhos o olhavam com enviesado espanto e ele não ousava dizer mais do que bom dia a cada pessoa com quem cruzava. Tentava aparentar naturalidade junto da moça, ao mesmo tempo que temia embaraçá-la com sua cara de "branco de asfalto".

"Vai dar na Paulo VI." Mentalmente, se esforçou para construir um mapa que delineasse com alguma precisão o traçado incerto da ladeira entre Laranjeiras e Flamengo. Ao mesmo tempo, para que o silêncio não fosse confundido com pedantismo ou covardia, ia explicando que, de uns tempos para cá, resolvera caminhar pelas ruas do bairro, em vez de correr ou andar de bicicleta. Mas evitava  olhá-la diretamente nos olhos. Notou que ela também o olhava de soslaio. A rua foi se transformando em uma viela estreita e as palavras escassearam até quase o silêncio.

"Agora é só descer a escadaria. Não tem como errar." Havia alívio na voz da moça. "Obrigado", ele disse - e quando se deu conta, ela sumira.

Ficou parado no alto da escadaria, imaginando que, num passado longínquo, teria sido possível ver o mar, o Pão de Açúcar, a entrada da baía. Agora, a paisagem era dominada pela impessoalidade dos prédios. Da janela de uma casa logo abaixo saía o som pesado de um rock. Sentiu uma solidão imensa e uma espécie de vertigem: de onde estava não divisava o fim da ladeira. E era preciso descer.