19 de julho de 2004
Anjo torto

Sente o suspense: depois de amanhã, o Stephan Hawking (aquele físico que descobriu os buracos negros e é, ele próprio, um buraco negro, seu corpo colapsado encolhendo cada vez mais em uma cadeira de rodas...) deve anunciar o que pode vir a ser o ponto de partida de uma teoria quântica da gravidade - ou seria melhor dizer uma teoria da gravidade quântica? Não sei.

Aliás, o que sei é quase nada sobre o assunto. Sei que há uma incompatibilidade entre a Relatividade e a Física Quântica. Se entendi bem, a Física Quântica está "prevista" na Relatividade. Mas havia uma rejeição filosófica de Einstein à idéia de incerteza implícita no conceito quântico - e daí, o pai da Relatividade teria inserido na teoria uma "constante" arbitrária, que"equilibra" a incerteza, anulando-a.

De certo modo, pode-se dizer que, depois de pelo menos 2 mil anos associando Deus e Necessidade, descobriu-se que Deus, em sua absoluta liberdade, é Contingência e não Necessidade. Einstein vislumbrou esse Deus Acaso, mas teria cedido à tradição, inserindo a tal constante. A frase célebre "Deus não joga dados" resume a pendenga.

O que físicos modernos como Hawking fazem é recusar a constante e buscar, dentro desse universo "inconstante e incerto" da física quântica, uma "consistência matemática" que "operacionalize" a incerteza.

Aliás, já bastante "operacionalizada": boa parte dos objetos que a gente usa - das células fotoelétricas aos cds - já é aplicação de tecnologia derivada de equações quânticas. A criatura superou o criador: contra a vontade de Einstein, mas baseado em sua teoria, hoje se admite que o mundo é quântico em sua estrutura interna.
(De certo modo, a gente pode dizer que o universo está mais para "meus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança" do que propriamente para "não sou nada, nunca serei nada - a parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo".)

Esses físicos trabalham com "lógicas paraconsistentes": modelos lógicos que ignoram o velho e bom princípio da não-contradição: "o que é, é. O que não é, não é" - ou dito de outro modo: "Algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo". Pois esse "ser e não-ser ao mesmo tempo" é exatamente o ponto de partida da física quântica.

Por aí já dá pra sentir o grau de "estranheza" do universo quântico, univeroso dass "partículas" infinitesimais que constituem tudo. É muito pra nosso cotidiano "previsível".

Imagine: nós que vivemos sob o domínio da sucessão, querermos pensar o simultâneo - esse ser e não-ser ao mesmo tempo. É muita ousadia. Faltam palavras metáforas, imagens, equações que dêem conta e, em dando conta, sejam suficientemente intelegíveis para nós, gente comum, habituada à evidente sucessão que domina o mundo, a vida.

Mas a humanidade vem dando esses saltos intelectuais desde sempre e o que hoje é estranho amanhã é o comum e dali vislumbramos algo até então impensável.

Se alguém dissesse a menina que foi sua avó, o que seria o mundo hoje, se alguém dissesse que um dia ela teria em casa um aparelho passando ao vivo um jogo direto do Japão...

Enfim, leitor toda essa longa, imprecisa e quase involuntária digressão, foi para dizer que é uma ironia que o que pode vir a ser o "Santo Graal da Física" nos chegue por um anjo torto, meio máquina, meio gente, cujo corpo vai colapsando como os buracos negros que ele "adivinhou" no cosmos...