2 de agosto de 2004
A casa velha

Ele mora na mesma rua desde que nasceu, mas não lembrava de ter entrado alguma vez naquela casa. Pensara isto fazia duas ou três noites, ao reparar, do alto de sua janela, a forma em C ou U que aquela casa tinha: do que seria uma frente comum, duas alas se alongavam para o interior da rua, com um pequeno pátio interno a separá-las. Deduzia-se fácil um hotel ou uma "casa de cômodos", como se dizia antigamente dessas casas que alugavam quartos sem banheiro. Pelas telhas de barro, se diria uma casa beirando os cem anos.

A partilha de bens entre herdeiros deve ter sido a causa da casa dividir-se em duas, uma com o formato de um I e outra com o formato de um L. Logo se vê que alguém ficou com mais, incorporando a entrada à sua ala.

Não sei se foi a forma que determinou o destino de cada casa, mas o L virou um restaurante de vida visível e rentável, e o I fechou-se em si mesmo, toda cinza e descascada, as janelas cegas, o portãozinho de chapas improvisadas tapando a visão e grades se sobrepondo cada vez mais altas, o número 7 quase apagado da placa de ágata azul...

Ficou olhando essas duas casas que, vistas de cima, eram de fato uma só, e se deu conta de que não lembrava de ter entrado lá uma vez que fosse. Não tinha dela nenhum traço de memória visível.
Não podia portanto perder a oportunidade de entrar na casa quando, ao sair para caminhar de manhã, viu o porteiro de um prédio vizinho abrir o portão da casa deixando antever de relance um alpendre asfixiado pela parede da casa ao lado. Pediu para entrar e foi bem vindo. Ficaram os dois, observando a casa um tempo, trocando informações e impressões um tanto desconexas: a casa estava à venda, o telhado precisa de uma obra boa, as paredes são sólidas, só o Velho ainda está morando aí...

Apenas o I, sem o L, vale pouco. A idéia parecia tranqüilizá-los. Ninguém queria mais prédios na rua. Aos dois aquela casa trazia memórias de infâncias passadas em lugares tão distintos quanto o Rio e o sertão nordestino, mas a arquitetura arcaica os unia.
Olhando o alpendre de madeira se deu conta de que era ali a entrada original da casa, construída no tempo em que tudo à volta eram chácaras e não havia paredes asfixiantes e as casas tinham longas frentes voltadas para o nascente. Bem podia ser isso...

E se for assim, repare o leitor a ironia meio chinesa de mostrar como as coisas são neste mundo de permanente movimento: o que fora, um dia, o ensolarado alpendre onde desfilavam as esperanças, dramas e fantasias de famílias inteiras agora colapsa à sombra úmida dos outros prédios, enquanto no que antes eram os fundos da casa, agora brilha um animado restaurante. "Tudo muta no seu contrário" - não é o que diz o I Ching? No caso do anacrônico alpendre de madeira côncava de tantos pés e tempo parece que sim.