9 de agosto de 2004
Cartier-Bresson, personagem de Borges

Uma historinha colhida há tempos na internet, ilustra com precisão a importância do olhar de Cartier-Bresson para a invenção disso que a comodidade nos obriga a chamar de século 20 - mas que, na verdade, acabou mais ou menos na mesma época em que Cartier-Bresson desinteressou-se de fotografá-lo.

Conta a historinha que um dia, Cartier-Bresson recebeu um telefonema surpreendente: do outro lado da linha estava ninguém menos do que Jorge Luis Borges, que lhe perguntava se aceitaria a indicação para um prêmio. Oferecido por uma rica mulher que vivía na Sicília, o prêmio se distinguia por uma característica muito particular: a indicação do ganhador era feita pelo premiado anterior. "E por que escolheu a mim?", perguntou Cartier-Bresson.

A resposta de Borges pode ser tomada como um prelúdio do que virá a seguir. Traz, de todo modo, a marca borgiana da poesia e da surpresa. "Porque sou cego", respondeu Borges. "E quero dá-lo a você em reconhecimento aos teus olhos".

Por mais injusto que possam parecer os prêmios, como notou Drummond em um poema, Cartier-Bresson não poderia recusar a indicação de Borges. A indicação valia mais do que o prêmio.
Ao chegar a Palermo, o fotógrafo foi hospedado em um antigo e tradicionalíssimo hotel. O nome, a arquitetura lhe pareceram familiares. Não lhe terá custado muito descobrir porquê. Tinha sido naquele hotel que seus pais haviam passado sua lua-de-mel. Como ele havia nascido exatos nove meses depois, concluiu maravilhado que fora concebido ali. Sentiu que um círculo, secreto e íntimo, se fechava: seus olhos o haviam trazido de volta à origem. E fora guiado por um cego.

Não lhe terá escapado que se tornara mais um personagem de Borges. Não me consta que haja de Borges alguma foto feita por Cartier-Bresson.

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Guardei também de Cartier-Bresson uns trechos de entrevista dada quando ele tinha 91 anos e que, só reparo agora ao escrever, podem servir de fundamento à tese de que Cartier-Bresson foi o fotógrafo de um século 20 que acabou por volta dos anos 80 (e que bem se poderia ter começado em 1907, quando Henri foi gerado naquele hotel de Palermo, e Picasso finalizou seu "Les Mademoiselles d'Avignon").

Seguem as palavras de Cartier-Bresson:
"Desde a juventude sou um revolucionário. O que me admira é que hoje não existam mais revolucionários. Hoje as pessoas repudiam tudo, vivemos num mundo niilista. A anarquia não é um modo de vida niilista, é o contrário."

"As pessoas estão impregnadas por mundo cyber, não têm mais contato com a realidade. Não há mais uma entrega. É o fim do artesanato. E o contato com o real é maravilhoso. Quero dizer, é a satisfação absoluta, como um orgasmo."

Não preciso dizer mais nada. Melhor ainda: é hora de me calar.

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Ainda na Internet, o Washington Post fez uma excelente montagem de textos e fotos. Mas, de fato, o material disponível é incalculável. Os links citados estão todos no meu site, o Café Impresso. Mas, claro, vale percorrer os principais jornais e revistas do mundo. Os links estão todos lá.