25 de outubro de 2004
Atenção e paciência

Um diz "Eu gosto de você", o outro vê uma fatura com vencimento hoje. Um diz "Eu te amo", o outro vê uma intimação judicial. Digo "um" e "outro" como poderia dizer "eu" ou "você". Tanto faz. A relutância amorosa parece geral. Todos se dizem tão desejosos de amor, mas desacreditam dele quando o vêem, como se, de tão raro, ele não pudesse existir.

Quando o amor é coisa plástica. Quem ama de verdade pode ser irmão, pai, amigo, amante, marido: qualquer papel lhe cabe, porque o amor o que quer é estar perto do que ama. Deve ser isto o amor ao próximo. Só isso: estar atento ao outro. Ao mundo. A cada coisa.

Fala-se tanto em amor, eu mesmo falo demais. Mas cada vez mais me convenço de que amor é atenção. Só isso: um estado de atenção tranqüila e admirada. Porque quem ama, ama tudo indiscriminadamente. Ao contrário daquela obsessão focada em um único objeto que associamos ao desejo.

E nem é que a gente confunda amor e desejo - pois a impressão que tenho é que os dois são como que uma coisa só. No lugar da mera oposição, o jogo de palavras certo talvez fosse dizer que a gente deveria "desejar com amor" em vez de "amar com desejo". Não sei... Juro que não.

* * *

Na segunda-feira passada, li na crônica do Joaquim Ferreira dos Santos, lá em O Globo, uma declaração do Hélio Pellegrino, na festa dos seus 60 anos que resume bem o que eu quero dizer:

"A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. (...) É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio desse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!".

Pois é, o avô da Antonia, que escreve aqui, às quartas-feiras, mandou muito bem. E o Joaquim teve a generosidade de anotar e reproduzir. Eu só repito, porque isso é coisa de se guardar, de se ter impresso num quadrinho bem ao alcance dos olhos, pra gente não esquecer nunca. Sobretudo a advertência final e necessária: haja saco! Porque sem paciência, nunca se chega ao amor. Aliás, nunca se chega a lugar nenhum.