8 de novembro de 2004
Cheiro de mar

Um cheiro de mar toma de súbito a madrugada, trazido por um vento leste que me sacode as folhas de papel sobre a mesa, anunciando sua chegada. Um cheiro acre, mistura de sal e algas, que o mar regurgita agora, depois de um dia incrivelmente quente, abafado, prenuncio de um verão de muito calor e muita chuva. O ar parece ter se tornado mais denso de repente como se o espírito do mar lhe abandonasse o vasto corpo para em segredo visitar seus súditos. Bem-vindo, espectro do mar que me percorre a casa como um monarca impaciente.

O que quer o mar em minha casa? O que me traz? A lembrança sensual de uma mulher que em sonhos se imagina aqui, em minha cama? Presságios de um naufrágio iminente? A cumplicidade de forças que desconheço? A nostalgia do que não serei ou do que fui em outras vidas, reais ou imaginadas? Não sei, mas reverente, apago todas as luzes e me acomodo na janela para melhor saudar o invisível personificado na fragrância que o mar exala. Respiro fundo, degusto este silêncio perfumado.

Dormem seu sono ingênuo os crentes de todas as espécies, cansados da luta diária de construir um futuro que nunca chega e o presente de uns poucos. Ingenuidade cheia de malícia, porque nesse futuro se sonham todos ricos e poderosos como os donos do presente a quem venderam sua alma. Dormem, e o cheiro do mar talvez lhes agite o sono - incômodo que não podem evitar.

Eu fico por aqui ainda mais um pouco, debruçado no parapeito, mansamente assistindo ao feérico cortejo dos ventos marítimos que só a uns poucos olhos se dá. Depois, volto para responder às perguntas dos alunos de minha amiga Rose Marinho, uma animadíssima professora de redação lá de São Paulo, que agora inventou um site bacanérrimo, o Língua do Brasil (www.linguadobrasil.com.br), e resolveu me entrevistar para publicar numa das sessões do site. Nos conhecemos já vai fazer cinco anos, por conta de uma crônica, veja só, leitor!, "Pretinho de sinal".

A entrevista é sobre filosofia e as perguntas são diretas, simples só em aparência - aliás, como quase tudo em filosofia. A Isa, por exemplo, quer saber se eu tenho uma filosofia de vida. Tenho, sim, Isa... Uma filosofia de vida que é como a roupa de domingo da minha alma e que visto sempre que saio para visitar o mundo. Vestido de domingo evito a lama e se me sujo não tenho como não ver.

Minha filosofia de vida se resume numa frase: "Só por hoje". Porque só hoje existe. Isso me cria um desapego pelo passado e pelo futuro e me fixa aqui e agora e então eu posso amar o que está próximo porque é só o que de fato eu tenho. "Só por hoje" cria um foco para a minha atenção no presente, no aqui e agora do meu corpo.

É difícil, é ideal, é contra tudo o que crêem aqueles que agora dormem embalados por ambiciosas esperanças, materializadas em promessas, planos e prestações. Mas é possível. É possível ser livre - como é livre a vida, o mar e esta brisa que não cessa, embriagante...