6 de dezembro de 2004
Aos pais

Aproxima-se a data natalina. Acostumastes vossos filhos aos presentes, ainda que nem sempre vossa presença lhes seja agradável. Sobretudo no Natal. Convém então acertar no presente. Contra todos os presságios, este ano, no que depender de mim, acertareis. Porque muito desse abismo que vos separa foi cavado por sucessivos presentes de Natal errados.

(Aliás, neste item a crônica deveria ser mais genérica, porque presente de Natal errado não é privilégio dos pais. Na verdade, historicamente, o índice de erro só tem feito crescer desde que, por conta de sucessivas desvalorizações da moeda, do trabalho e do próprio ser humano, atribuídas todas ao progresso de nossa civilização, o "presente de natal" se reduziu a "só uma lembrancinha". O presente era um signo de riqueza. A lembrancinha um signo de pobreza, inclusive de afeto.)

Mas, retornando às relações natalinas entre pais e filhos, sucessivos presentes errados podem ser uma das fontes de mágoa que assim viceja, regada com a regularidade dos calendários e dos relógios: todo dia 24 de dezembro à meia-hora o tão esperado erro é perpetrado entre beijos e abraços, que a hipocrisia é uma embriaguez que não conhece limites.

A quebra da monótona roda do rancor pode ser a surpresa de um acerto. Como um convite para o olho móvel da tormenta, mas, de todo modo, um convite para estarem juntos que finalmente chega, já não importa o atraso.

Um presente que seja uma ponte - menos ainda, uma corda, que se atira para o outro lado sem outra esperança senão ouvir um genuíno "obrigado" . Falo de um livro - em dois volumes. Falo da monumental tradução de Ivo Barroso das obras completas de Rimbaud.

Deixo que fale o próprio Ivo, em seu prefácio:"Mas o estudo dessa obra, o reconhecimento de sua autenticidade e violência desde logo me convenceram que nela estava a verdadeira poesia e era mais útil e importante divulgá-la que burilar as filigranas de um responso pessoal. Hoje estou inclinado a crer que fiz de Rimbaud uma missão, para a qual me armei pesada e demoradamente: levar a sua voz - não a minha - aos leitores brasileiros que há mais de um século se privam dessa mensagem de revolta e renovação".

Autenticidade e violência, revolta e renovação hão de soar como música a ouvidos ávidos de aventura. Por outro lado, o exemplo de paixão, disciplina e entrega de Ivo terá o sentido da pedagógica advertência que talvez lhes falte:
"Passado mais de um século da morte de Rimbaud, sua obra continua a soar para todos os que dela se aproximam como a expressão de um poeta além de seu tempo, ou, melhor ainda, além do tempo, sempre novo, sem deixar de ser um clássico em que predomina o mais absoluto respeito pela linguagem e pureza de expressão. Rimbaud conseguiu dizer tudo, da mais excruciante blasfêmia ao mais despudorado erotismo, sem conspurcar a elegância, a correção e a riqueza da linguagem"

Tereis dado a vossos filhos um irmão. Aliás, dois. Ivo e Rimbaud. Ivo que foi Rimbaud, em português. Ivo, que foi Ivo, ao deixar de ser Ivo. Ivo: Ivíssimo Ivo.

Enfim, talvez nada se resolva entre vós, pais e filhos. Talvez só se multipliquem os problemas. Mas, certamente, a lembrança desse Natal de surpresas vai desafiar para sempre a volúvel memória.
Mas se vós não vos incluis entre os pais odiosos (e, nem por isso, menos amados), se vós e vossos filhos encontrais sombra no silêncio e não um sol de meio-dia, então ide e vos internais nos sebos até encontrardes um exemplar de "As Pipas", de Romain Gary, que esse outro abnegado, Flávio Moreira da Costa, fez incluir em antiga coleção da Francisco Alves. Ide, que a intimidade é árdua - e um livro desses, prova irrefutável de amor.