13 de dezembro de 2004
Conspiração melífera

A cidade recende a mel. A princípio, pensei que a coisa fosse só na minha rua, vinda dos velhos oitis que quase alcançam a minha janela. Mas andei pela Lagoa, por Ipanema, pelas ladeiras de Santa Teresa e em todo lugar, não importava a hora do dia ou da noite, encontrei o mesmo cheiro de mel, como se uma conspiração melífera estivesse em andamento para nos adoçar a vida nestes dias de verão infernal.

Ou talvez seja isso, alguma floração extraordinária de todas as plantas, por conta do calor que eu diria surpreendente se, a cada ano, já não estivéssemos mais ou menos preparados para um verão ainda mais quente do que o anterior. Talvez a memória me traia, pois não me apoio em nenhum relatório meteorológico para dizer que me parece inegável que o calor é crescente a cada verão.

Mas, seja como for, a surpresa deste verão para mim tem sido este doce e denso odor melífluo que perfuma o ar pela cidade toda.
O Rio cheira mel, leitor de outros mundos, neste dias de verão estranho. Digo estranho porque de tão quente o sol não se sustenta: devora-se a si mesmo e se desfaz em chuva lá pelo meio da tarde. O dia até pode amanhecer ensolarado e limpo, mas o calor é tanto que a evaporação vai adensando as nuvens mais e mais até que a tarde termina sob um céu de pedra. "Quando desabará?", se interroga em silêncio o coração aflito.

Porque acredito que não haja carioca que não carregue a lembrança de alguma enxurrada que lhe tenha marcado a alma com o brasão do medo. Eu, pelo menos, não foram poucas as vezes em que me vi ilhado pelas águas, a pé ou dentro de um carro. Fora as cenas de catástrofe, desabamentos e enchentes dolorosamente previsíveis que ilustram as manchetes dos jornais ou as reportagens de TV.

Como esquecer o olhar perplexo de alguém que acaba de perder tudo: a casa, a família, a própria razão de viver porque onde antes havia um lar agora o que há é um monte de lama?
Não, quando chove assim, tão chorosamente, não há talvez quem não se comova. Mesmo quem está seguro em sua casa como eu, mesmo alguém tão duro como eu, em algum momento, nem que por escassos segundos, sente pena dos que não têm casa e se encolhem sob a marquise ou dos que oram encolhidos para que seu barraco não deslize.

Aliás, quando chove assim tão copiosamente, com a sofreguidão e desespero dos apaixonados, talvez só os poderosos não sintam um primitivo impulso de rezar. Talvez só eles, fechados em seus castelos de triunfo nem se dêem conta de que chove sob um céu de pedra ou que no ar trescala um inusitado cheiro de mel.