27 de dezembro de 2004
Conto de Natal

O leitor há de reparar que nas paradas de sucessos, das dez mais tocadas, oito ou nove, quando não as dez, versam sobre a dor de cotovelo. Eu aqui, na pressa e sem muita inspiração, fuçando nos meus guardados, dei de cara com este texto, uma dor de cotovelo natalina. Essa a sua graça. Uma dor de cotovelo natalina que o tempo transformou num conto.

* * *

Mais uma vez o Natal nos pega separados. Fico imaginando um Papai Noel mal informado deixando presentes meus na tua casa ou perguntando a mim "De novo?" - e eu dou de ombros e retruco "E daí?". Minha história tem suas datas particulares, as que intimamente festejo.

Uma amiga, por exemplo, anda de choramingança (choradeira de vingança) por conta da ausência do irmão em sua festa de 40 anos. Que haja mais festas e danem-se esses marcos - festa a priori nem em Kant.  A verdade é que mesmo sem ele, nos divertimos muito. Ninguém é necessário. A verdade é essa: ninguém é necessário.

Estamos separados - mas eu ainda sou o menino Jesus do teu presépio.
O que quero dizer é que eu desejaria ser sempre algo bom de se lembrar, uma referência em caso de dúvida, um calor quando a solidão se instala, um certo jeito de olhar as coisas, essa intensidade dos olhos.

(O mais duro de admitir para o apaixonado é que sozinho possa ser bom, que longe possa ser possível... Seu último recurso é o lirismo romântico a que se entrega, às vezes. Cada vez menos - espero...)

Obs: Para ler ouvindo Oscar Peterson e Billie Holliday em "Love for sail"

* * *

"Meu amor:
Desculpe e obrigado."

Podia ser um telegrama.
Podiam ser dois.
Podia ser eu ou você a mandar.
Ou os dois:
"Que coincidência!".
Como esta, de tocar o telefone justo quando acabo de escrever a frase o que será para sempre minha metáfora natalina do amor: "Eu ainda sou o menino Jesus do teu presépio".

(Pois quando, enfim, desfeita a culpa, você soube dizer o que por dentro te ia e o que te recompensava, eu pude ver então a mulher e entender o homem que me tornara: você foi em busca de carinho, de alegria, de ilusão verdadeira. Um pouco de sonho, o agradável toque de irrealidade - porque a vida precisava de férias. Foi só quando flagrei um certo brilho nos olhos de outra mulher que entendi o que eu não te dava mais...)

É isso. Só isso - e que doa, não surpreende. Mas e daí, se até em sambinha deu?

* * *

Samba hai-cai

Aquela fé pagã
Era o amor.
Mas apagou-se.

Lá fora, o sol
Esplendora.