31 de janeiro de 2005
Fidelidade

Você pergunta o que eu acho - e o que eu acho é diferente do que eu sinto. Eu sinto ciúmes, como todo mundo. Ciúmes e ímpetos homicidas, se você quer saber. Mas o que eu acho é que fidelidade é algo que se dá, mas não se pede. O único critério para exercê-la é a satisfação. Se você está satisfeito, por que se martirizar com questões desse tipo? Não faz sentido. Também não queira transformar em norma para o outro o que é uma regra imposta a você por seu próprio corpo saciado. Nem sequer se interrogue se ou por que você é suficiente para o outro. Reciprocidade é um termo bancário, antipático e injusto: o amor é sempre desigual. Claro, na paixão, tudo coincide. Mas quem quer o amor precisa ser mais flexível.

Portanto, guarde bem isto, anote, se precisar, escreva na carne com gilete: fidelidade não se pede, só se dá. Ou não. Quem dá, não conta vantagem. Quem não recebe, faz vista grossa. O outro, por mais que venhamos a amá-lo, é sempre um mistério - até para si mesmo. Insondável criptograma que se decifra com paciência e sorte. Deixe-o ser e se deixe encantar por quem te seduz. Ou se desencante de vez. Mas, como sempre, você está sozinho.

Acho que o primeiro ditado que toda criança aprende é: "Os incomodados que se mudem". Como era difícil ter de se resignar à idéia de um limite - e, mais difícil ainda, aprender a não deixar que a situação chegasse ao ponto de ter de escolher o gesto extremo de ou sair, premido pelo orgulho, ou deixar-se ficar, amargurado pela rendição.

A idéia de que a vida amorosa é um toma-lá-dá-cá incessante e justo é uma metáfora mercantil e burra que nem traduz a vida, marcada pela desigualdade, nem a economia, marcada pelo lucro. Mesmo a idealização de um "socialismo" que produzisse essa igualdade, já descobrimos, nós adultos do século passado, termina sempre em tirania. Para não insistirmos no mau gosto das associações econômicas, encerremos com a velha máxima: "De cada segundo suas possibilidades e a cada segundo suas necessidades". Enfim, dar sem exigir em troca é o que ensinam as melhores filosofias. Difícil é. Mas não há outro modo de ser feliz.

E não pense que assim estará garantida uma tranqüilizadora cegueira. A satisfação é um critério implacável. Silencioso e obstinado como os gatos. O infiel é, por exigência da Física, um ausente: ninguém pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Logo, o acúmulo dessas ausências, somado ao peso das mentiras que tentarão justificá-las, será tamanho que não haverá mais satisfação.
Até mesmo o perdão se tornará inútil: você perdoa, mas o bloco de ausências e mentiras está lá, antimatéria de ação imediata e incessante. É o fim: a satisfação nunca mais será completa e, pior, na economia do amor, ela nunca mais será suficiente. Olhar aquele rosto, esculpido agora em um bloco de ausência e mentira, produz um desencanto que gozo nenhum é capaz de apagar. É o fim. Mas também o fim tem suas máximas e rituais quase sagrados.