28 de fevereiro de 2005
Fumaça branca para um Papa negro

O Papa está morrendo e as apostas em torno do sucessor já estão rolando. Parece mórbido, mas é a expressão de duas ilusões humanas, demasiado humanas: prever o futuro e ganhar dinheiro fácil. As derrotas que essas duas quimeras já infligiram aos homens não parecem ser suficientes para impedir que outros voltem a desafiá-las. Como se vê, a ilusão é um vício: sempre haverá disposição para tentar mais uma vez.

Encontrar sites de apostas online para acompanhar o ranking é tarefa fácil. Basta consultar o oráculo Google usando duas palavras-chaves: "pope" e "bets" ("papa" e "apostas"). Para quem tem menos intimidade com a Internet, um dos endereços mais simples é o seguinte: www.online-betting-guide.co.uk/Next-Pope.htm -.

Quem lidera o ranking das apostas é o arcebispo de Gênova, Dionigi Tettamanzi, que está pagando 5 por 2. Aos 71 anos, gordinho e sorridente, ele tem pinta de João XXIII, mas é um ultraconservador em assuntos teológicos, ligado à Opus Dei. Ao mesmo tempo, é um crítico atuante da globalização e das políticas neoliberais do G-8, o que acabou lhe valendo o apoio do que soa muito antigo chamar de nova esquerda, mas vai assim mesmo, na falta de nome melhor. Pode parecer contradição, mas quem passou pelo último Fórum Mundial, em Porto Alegre, ficou chocado com a caretice dos caras.

Para o público leigo, a surpresa está no segundo lugar, ocupado pelo cardeal nigeriano Francis Arinze, a uma distância muito pequena de Tettamanzi, pagando 3 para 1. Nada surpreendente, no entanto: o africano freqüenta a lista dos papabile desde 1992 e nada mais pop que um Papa negro para suceder João Paulo II. Há mesmo quem insinue que, ao escolher 122 dos 135 cardeais com direito a voto no próximo conclave, o Papa manobrou exatamente nessa direção. Arinze também vem servindo o Papa na Cúria Romana há 21 anos e, em 1994, quando João Paulo fraturou a perna e Arinze foi o escolhido para subsitui-lo na missa final do Sínodo da África.

Outro indicio é o patrocínio quase explicito de sua eleição pelo cardeal Joseph Ratzinger, talvez o mais próximo colaborador de João Paulo. Em mais de uma ocasião, Ratzinger declarou que um Papa negro seria "um sinal positivo para a Cristandade". Duda Mendonça assinaria embaixo.

Tão conservador quanto o arcebispo de Gênova e o próprio João Paulo, Arinze nasceu numa tribo Ibo no coração da África, há 73 anos, e só aos nove foi convertido ao cristianismo pelo monge cisterciense Cipriano Tansi - que, por influência de Arinze, foi beatificado por João Paulo.

Dos apocalípticos aos integrados, todos, na verdade, sonham com um Papa negro. Para os primeiros, será um sinal inequívoco do Fim dos Tempos. A citação de um dos títulos mais conhecidos de Umberto Eco ("Apocalípticos e integrados") não foi por acaso. Quem leu talvez seu melhor romance, "O pêndulo de Foucault", ou mesmo o recente "O código Da Vinci", de Dan Brown, conhece São Bernardo, a Ordem Cisterciense e a relação deles com os Templários, Jerusalém e o antigo Templo de Salomão, onde hoje estão o Domo da Rocha e o Muro das Lamentações. Some a isso o conflito árabe-israelense, bombas atômicas e terrorismo, agite bem e você terá o cenário perfeito para fantasias apocalípticas.

Para os "integrados", um Papa negro do Terceiro Mundo consolidaria o trabalho de João Paulo II de popularizar o catolicismo. E se George W. Bush conseguir mesmo fazer da negra e cristã Condolezza Rice sua sucessora na Presidência dos Estados Unidos, o século 21 vai começar a ser algo mais que uma sensação de novidade.

De qualquer modo, meu candidato é outro negro, o sul-africano Wilfrid Napier. Mais jovem e menos conservador, Napier tem outra vantagem irrecusável: está pagando 33 para 1 nas bolsas de apostas.