7 de março de 2005
Pimenta-do-reino

O dia passara como um gato entre sombras.

Um lento turbilhão de nuvens, que silenciosamente se adensavam e distendiam ao sabor de uns ventos desencontrados e conflitantes vindos do leste e do norte, ia desenhando no céu uma permanente ameaça de chuva que nunca chegava a se cumprir. O sol esgueirava-se de vez quando entre nesgas de azul no céu cinzento, mas se fizera presente o dia todo, no ar quente e abafado, pesado como as horas.

Acordara tarde e deixara-se ficar na cama, lendo o jornal insosso e pretensioso de todos os domingos. Nem sequer se dera ao trabalho de uma refeição completa: a geladeira e a despensa eram a expressão de sua índole meticulosa e não lhe faltavam frutas, queijos e biscoitos para beliscar.

O telefone não tocara sequer uma vez - e teria sido uma surpresa se tocasse: não esperava ninguém. A solidão deixara de ser uma anomalia exasperante para tornar-se parte de sua vida.

Há quanto tempo não fazia sexo? Não ousava responder com números precisos, refugiando-se em variações e nuances que ampliavam a questão até torná-la irrespondível: Qual a última vez que sentira prazer? E que prazer fora? Puro sexo ou amor? Que diferença havia entre um e outro? Alguma vez os tivera juntos? Tantas questões tornavam o tema tedioso e supérfluo a ponto de sentir-se como se recordasse a história de uma outra pessoa ou de uma personagem literária: fazia tempo suficiente para que ela se sentisse esvaziada de todo o passado, era a conclusão que lhe bastava.

Esse tempo, que visto assim já não lhe parecia tão longo, levara junto não sua vida, mas um modo de viver. A amiga escritora que acompanhava ansiosa a recuperação do marido recém-operado, lhe dissera cheia de supresa em um e-mail: "A tendência da vida é cicatrizar, unir pra dar sentido, veja os fonemas, as palavras... Mas um dia tudo tende à separação, o brilho das estrelas vem disso, não é?".

Não sabia, mas confiava que sim, devia ser... Na cozinha, ao temperar um suco de tomate, pensou que, por aquela pimenta do reino que lhe custara pouco mais de um real, crimes inomináveis haviam sido cometidos no passado e, sobre esses cadáveres, impérios foram erguidos. Aquela pimenta já valera mais que ouro...

Sentou-se em sua cadeira predileta junto à janela para assistir ao pôr-do-sol. Súbito, se deu conta do morno calor dos tacos do chão lhe subindo pelos pés e lentamente se irradiando pelo corpo.

Toda sua atenção concentrou-se nessa sensação - ao mesmo tempo, comum e inusitada - e foi com o coração sobressaltado de emoção que percebeu que seus pés eram como que massageados por nuances sutilíssimas de temperatura que imprimiam mais ou menos calor em ondas lentas e sucessivas. Fechou os olhos e deixou-se sentir esse carinho que ela mesma se dava, extraído do mundo sem esforço.

Já não pensava em nada, aconchegada em si mesma. Deixou-se ficar assim até que um cheiro de pedra molhada entrou pela janela numa lufada de ar fresco. Não precisou abrir os olhos para saber que chovia.