18 de julho de 2005
Do sentido da vida

Como estará o mundo depois de dez dias de total isolamento, sem telefone, sem televisão, sem jornal, sem internet? Governos terão caído? Atentados terroristas espetaculares terão acontecido? A morte terá imortalizado alguém? E como estarei eu, depois de tantos dias meditando em silêncio, sem trocar conversa com ninguém, num exercício contínuo de não pensar em nada?

De novo neste mundo que me é tão afim naquilo que ele tem de menor e cotidiano, é de se imaginar que agora, mais do que nunca, tudo que tenha a pretensão da grandiosidade me pareça de uma desimportância brutal. Lembrei da passagem de "Macbeth": "A vida é uma fábula narrada por um idiota: cheia de sons e fúria, mas sem nenhum sentido".

Mas não a minha vida. Ao menos não esta vida, incrivelmente ínfima e real, particular e anônima, onde eu, enrolado nas inúmeras tarefas que precedem uma viagem, peço a você que caminhe por mim e me traga uns pedacinhos de sol. E então você me aparece, de surpresa, trazendo nos braços uns girassóis enormes! E é como se você declamasse calmamente em minha porta um poema sem palavras, mas carregado de sentido.

Que lição, amorosa e inesperada!

Sentido é algo que se cria e se acrescenta à vida exatamente assim, fazendo que as metáforas floresçam e brotem do chão duro do óbvio. Porque o sentido, como obra humana, é algo que se gasta, esfria, perde o sabor. Girassóis são, sim, pedacinhos de sol!

Então, sim, quando a negação de novo me ameaçar com a ilusão de um sentido final e definitivo ("Não, não há nenhum sentido") eu me agarrarei a esta lembrança de você com ar travesso sorrindo em minha porta, abraçada a enormes girassóis. E essa imagem luminosa e quente há de espantar as trevas e restabelecer a vida.

E é assim que espero estar voltando hoje: um sorridente e enorme girassol que persegue metáforas para enfeitar de sentido a vida.

* * *

Bom, depois de dez dias sem ler e escrever, certamente chegarei ávido por livros. Uma pilha deles aguardará a minha volta junto à cama. São como cães fiéis, os livros. Não dizem que são os cães que levam seus donos a passear? Pois o mesmo acontece com os livros.

Citei "Macbeth" aí em cima e me dou conta que li muito pouco Shakespeare. Nem posso dizer que li o óbvio porque, em se tratando de Shakeaspeare, a obra inteira é obrigatória. Enfim, li apenas "Hamlet", "Otelo", "Romeu e Julieta" e "Rei Lear".
Ao contrário da maioria, eu gosto de ler teatro. Aliás, também gosto de aproveitar a linguagem do teatro como forma literária. Concisão descritiva e ênfase nos diálogos são uma boa fórmula narrativa.

* * *

E você, leitor, veja com são as artimanhas da escritura: nem fui ainda e já estou de volta, louco por escrever, escrevendo.