1 de agosto de 2005
Pesadelo

Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Por toda parte. Dinheiro. Andava pela imensa casa e tudo que havia era dinheiro, espalhado por todos os cômodos. Agora mesmo, quase caíra ao tropeçar em um maço enorme de dinheiro ao pé da porta do quarto que deveria ser das crianças.

Havia dinheiro espalhado pelo chão, sobre os móveis, em todas as gavetas e armários. Tentava encontrar algum indício de quem habitava aquela casa sem espelhos mas tudo o que encontrava era dinheiro. O cheiro doce e inconfundível do dinheiro impregnava o ar, onipresente.

Ao abrir a porta de um armário mais alto, maços de notas desabaram sobre ele. Sentiu uma dor intensa no olho esquerdo, uma sensação de calor e inchaço imediatos. Instintivamente fechou os olhos e levou a mão ao rosto. Percebeu que sangrava. Apalpou com cuidado a região para avaliar a extensão do corte e do hematoma que se formava. Orientado apenas pelo tato, tinha a impressão que a gravidade se amplificava e adquiria uma proporção monstruosa. A ferida já quase lhe fechara o olho e imaginava que o rosto estava completamente deformado.

Saiu pelo corredor em busca de um banheiro e não custou a encontrar um amplo lavabo todo de mármore branco. Na pia, também imaculada, reluziam torneiras que pareciam ser de ouro. Umas poucas notas de dinheiro espalhadas aqui e ali eram o único vestígio de desordem. Mas, como ele já deveria esperar, não havia espelhos.

Um pensamento atormentado tomou conta de sua cabeça: "Como poderia saber que aquele rosto deformado era mesmo o seu?". A pergunta era absurda, pensava. "Não existe transmigração de almas em vida", argumentava consigo mesmo até se dar conta que até seus argumentos eram absurdos. Tudo era absurdo.

Depois de se debater mentalmente nesse dilema de paradoxos por um tempo que não saberia precisar, se deu conta que já não sabia mais quem era. Não recordava como era seu rosto e nem de onde viera ou o que fazia ali.

Ao contrário do que poderia esperar, aquela súbita conclusão o acalmou. A impossibilidade de conjecturar sobre seu passado permitia que se concentrasse no momento. Um sentido de urgência lhe tomara todo o corpo. O olho machucado se fechara definitivamente e sentia que o rosto inchava e se desfigurava cada vez mais.

"Em terra de cego, quem tem um olho é rei", balbuciou para si mesmo num tom cheio de ironia e ficou feliz em constatar que tinha uma voz.

Finalmente, lembrou de lavar a ferida. Mas, ao abrir a torneira de ouro, não pode conter um grito de pavor. Sangue! Das torneiras jorrava sangue! O contraste veemente entre o vermelho viscoso e a brancura da pia intensificava o seu horror. Toda a segurança que há pouco sentira se esvaiu de repente, deixando seu corpo frio e trêmulo. Como por instinto, virou-se para a privada e vomitou. Mas não havia o que vomitar e as contrações involuntárias do abdômen lançavam apenas baba no vaso. Deixou-se cair de joelhos. Uma das mãos amparava a cabeça enquanto a outra tateava em busca da descarga. Finalmente, a encontrou e acionou. Sangue! De novo, sangue! Saltou para trás e, de quatro, fugiu para o corredor. Sentou-se, encostado na parede e cercado de notas. Dinheiro. Dinheiro e sangue.

Sua mente desordenada concluiu que a casa era um ser vivo que se alimentava de dinheiro e gente. Tão certo estava disso que podia sentir o calor do sangue correndo pelos canos e o quase imperceptível movimento da respiração da casa. Ele fora engolido. Sem se dar conta, sem saber como nem quando, ele fora engolido.

Ouviu uns gemidos e viu uma fila de pessoas vindo em sua direção. Quando chegaram mais perto, percebeu que era cinco ou seis, todos deformados e mutilados. Figuras pavorosas que pareciam saídas de um pesadelo. Passaram por ele sem dizer uma palavra e continuaram em direção ao fim do longo corredor. Intuiu que caminhavam inexoravelmente e sem nenhuma pressa para o que deveria ser os intestinos da casa. “É a única saída”, pensou. Levantou-se e seguiu o cortejo monstruoso.