15 de agosto de 2005
Um exemplo para os politicos

Enfim, um brasileiro que trabalhou para roubar. Foram três meses para cavar um túnel de oitenta metros sob um quarteirão inteiro para chegar à versão cearense desses prédios suntuosos do Banco Central espalhados pelo país, perfurar o chão exatamente sob a caixa forte e levar 156 milhões em notas velhas, quase impossíveis de serem rastreadas. Um trabalho perfeito.

Digo "um brasileiro" porque suponho que exista um líder, um autor intelectual, mas estou de fato sendo injusto com os outros quatro ou cinco cidadãos que participaram da empreitada. Estão todos de parabéns pelo exemplo de dedicação e esforço num momento em que a nação mais se sente moralmente debilitada e sem motivação para acreditar que o trabalho duro possa ser recompensado.

Esses homens poderiam ter se candidato a deputado ou a algum outro cargo público e entrado na fila de um dos muitos mensalões que rolam por aí; poderiam ter aberto um banco; ou simplesmente encostado um fuzil na cabeça de alguém para roubar. Não, nobremente escolheram correr o risco de investir no projeto de assaltar um banco. E não um banco qualquer, desses que diariamente engordam suas receitas com tarifas escorchantes e juros de agiota, mas o Banco Central, símbolo máximo do poder autocrático que há mais de dez anos determina os rumos da vida de cada brasileiro e deles extrai os impostos que depois se converterão nos juros pagos aos banqueiros por emprestar ao governo o dinheiro que depositamos nos bancos, aquele que sobra depois de pagarmos os impostos que servem para pagar os juros... Enfim, todos os leitores conhecem o círculo infernal do absurdo que nos rege.

É realmente um alívio saber que no Brasil ainda existem ladrões no sentido clássico do termo, gente capaz de planejar e executar um assalto milionário sem recorrer à corrupção ou à violência. Gente que se arrisca, que investe e que ultimamente tem enfrentado a desanimadora concorrência desleal dos políticos e de outras instituições públicas.

Espero que esses bravos rapazes sejam de fato presos para que a nação possa homenageá-los com a merecida estadia em um confortável presídio de segurança onde poderão continuar exercendo suas atividades sem os transtornos da clandestinidade que o injusto anonimato os obriga.

Certamente, lá não correrão o risco de o convívio involuntário com algum dos freqüentadores das inúmeras listas do Sr. Marcos Valério vir a desvirtuar suas práticas. A Justiça brasileira já deu prova que se esforçará ao máximo para evitar a contaminação dos criminosos ditos clássicos por essa nova classe de meliantes que vem rebaixando o crime a uma atividade destituída de todo o brilho e glamour que sempre a cercou.

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Esta crônica foi escrita quase em seguida à noticia do assalto de Fortaleza e, publicada hoje, pode já ter sido atropelada pelos fatos. Quem sabe, a esta altura o Brasil já conheça os rostos desses ousados empreendedores do crime, um exemplo para nossos representantes em Brasília. Talvez até já tenham contratado algum escritório de advocacia (a direção do PT pode indicar alguns) que já estarão distribuindo notas à imprensa afirmando que não foi exatamente um assalto, mas um recolhimento ilegal de fundos de campanha visando às eleições do próximo ano. Afinal, no Congresso como no Carandiru, todos são inocentes. A única diferença é que o Carandiru já foi demolido.