22 de agosto de 2005
Do trabalho e da preguiça

O dia amanheceu nublado. Frio. Será finalmente o inverno? Estamos a um mês da primavera e, ao menos no Rio, o inverno ainda não aconteceu. Não gosto de frio, mas sinto falta do inverno carioca, que só aos friorentos como eu obriga a uma roupa mais pesada de vez em quando. Este ano, nem isso. Têm feito dias esplendorosos, de céu limpo e sol intenso, praias limpas e vazias. Não, leitor, não tenho ido à praia. A preguiça e o trabalho se alternam como pretexto para não pegar a bicicleta e pedalar até à Praia do Diabo, que ainda é a minha favorita. Mas se a disposição fosse grande e o tempo curto, haveria no meio do caminho a hipótese da Praia Vermelha, na Urca, ou a do Leme, no cantinho de Copacabana. Mas, não, não tenho ido.

Então, para me informar da temperatura da água, dado fundamental quando se pretende escrever sobre praias, tenho de recorrer aos amigos. Ligo para Marcos Jucá, que diariamente dá seus mergulhos em Ipanema. "A água anda muito fria?". E ele me responde com precisão oracular e meteorológica: "Há um impacto."

Perfeito! Imediatamente sinto no corpo o choque da água fria e contrastante... Não é algo que me faça correr. A água fria do mar não me incomoda. Adoro o mar, ainda que o tenha freqüentado pouco. Mas sabê-lo ali, próximo e incessante é algo que me acalma. É como se fosse um gato que se tem em casa. A discreta felicidade de se ter um gato - que só quem os tem sabe contar. Não, leitor, também não tenho gatos. Mas sei ouvir contar deles meus amigos. E agora lembrei da Violeta Machado... Meu gato é o mar, Violeta.

* * *

E nada de sol... Em compensação, há um silêncio incomum lá fora. A manhã avança quieta, como se também o coração dos homens se tivesse deixado contagiar pelo aconchego dessas nuvens. Um silêncio de domingo baixou sobre esta rua, que nos dias de semana soa ser mais agitada.

A indiferença da Natureza pela História me faz rir. Não de ironia, mas de satisfação. Não somos seres históricos, mas seres naturais, como as nuvens, os gatos, o mar. Que se dane essa canalha tão díspar que tem em comum a ânsia de poder, de mais poder. Havemos de sobreviver a todos eles. Aos canalhas profissionais e aos amadores, aos canalhas mal-intencionados e ao pior de todos os tipos de canalha: o canalha bem-intencionado, aquele que, diz o ditado, só faz lotar o Inferno. Não se espantem se em algum momento um desses canalhas bem-intencionados nos disser com os olhos brilhando de sinceridade: "Fiz isso para o seu bem."

A vida segue e também eles passarão até o dia em que percebermos que não precisamos deles e viveríamos melhor na anarquia, numa doce anarquia onde a preguiça e o trabalho se encontrem e se combinem, como nesta crônica, caro leitor.