28 de agosto de 2005
Postais de mim

"Quero notícias suas. Notícias íntimas do coração. Me mande uns postais para a gente não se perder de vista. Postais do "dentro"." Um cartão postal de mim, Deborah me pede. Adorei a metáfora, isso de me ver como paisagem. O Rio é uma cidade de postais e fico imaginando que paisagem eu escolheria para ser eu. Estendo a pergunta a você, leitor: que paisagem carioca você escolheria ser? E-mails para ahc@cafeimpresso.com.br.

Aproveitei o intervalo desse anúncio para me decidir. Estava entre o Corcovado e a Prainha. Hoje, agora, por sonsa modéstia, escolho a Prainha para me representar. O mar, mais do que as alturas, é minha mais íntima metáfora. A simplicidade de uma praia. Seu silêncio.

É assim que me vejo, Deborah... Como alguém que tivesse aportado numa praia. À minhas costas, o mar - para onde não vale a pena voltar. À frente, o um novo mundo, desconhecido e vasto. Sou como um náufrago. Um imigrante, qualquer um que chega e sabe que terá de começar do zero. E, portanto, não deve ter pressa. De fato, me movo, neste dias, com discreta lentidão e o tempo tem sido exato para tudo. Tecemos, o tempo e eu, um delicado bordado cujo desenho não sei.

O amor, anagrama de mar, é também sempre um desafio, porque nele se mistura o bravio desejo que nos arrasta às vezes para longe, e depois nos atira de volta contra a pedra bruta. O amor, esse anagrama de mar, é também a areia que nos acolhe, aconchegante e nos oferece a sombra incerta de umas palmeiras. O amor... Vá entender... Juro que, se eu soubesse a chave, seria só amigo (e não esse irmão incestuoso, que é como eu me sinto, às vezes, quando amo...).

Você me pede postais. Postais de mim. Então te digo que minha alma é também uma rua vazia por onde passam uns pensamentos. Passam - às vezes, bêbados; às vezes monges - errantes e solitários. Deixo que passem sem registro. A iluminação, esse tema que nos é tão caro, vaga promessa de toda meditação ou prece, a iluminação parece sempre tão distante e, ao mesmo tempo, tão ali, ao alcance da mão. Vá entender...

Meus planos? Não ter planos. Menos, menos, menos. Cada vez menos. Querer pouco, querer quase nada, querer nada. "Já tenho tudo que preciso", me repito isso como um mantra. Porque me custa muito acreditar. Ainda.