5 de setembro de 2005
O sentido da vida

Aline se pergunta sobre o sentido da vida. É uma moça nova, que queria ser uma casa em Mauá, cheia de árvores e com um rio correndo no fundo. Eu, que queria ser uma praia, também me interrogo sobre o sentido da vida... O que dizer para Aline?

Eu diria que a vida já é um sentido. A vida só tem um sentido: viver. Você veja, Aline, que tudo que é vivo só quer uma coisa: continuar vivo. A vida é tão forte que você não diz simplesmente "Não quero mais viver" e morre. A vida persevera. Persevera a despeito de você. Viver não é uma escolha sua.

Primo Levi, um judeu italiano, grande poeta, que esteve preso em Auschwitz, se perguntava porque os prisioneiros comuns (ele, por ser engenheiro químico, tinha uma vida um pouco melhor no campo) não se atiravam contra a cerca eletrificada e acabavam logo com "aquela vida". Talvez nem mesmo eles soubessem... A vida só quer viver. É mais forte que nós.

Quer ver? Pense numa grande dor que você tenha sofrido. Uma dor física mesmo. Agora tente lembrar dessa dor. Da dor exatamente, não dos sentimentos que a acompanhavam. Você não lembra! Lembra do trauma, da sensação de fraqueza, de abandono, de impotência, de humilhação até. Mas da dor você não lembra .
Agora, faça o inverso e pense num grande prazer. Um momento muito intenso de amor, por exemplo. Repare que é bem mais fácil lembrar. E se você fechar os olhos, é até capaz de sentir de novo, na pele, na ponta dos dedos,o toque, o cheiro, o gosto... Não sei, mas eu acho que isso é um exemplo dos mecanismos mais íntimos da vida para sobreviver a si mesma.

Também me acontece às vezes de pensar esta vida como um prêmio ou um castigo. Pensar esta vida como "nossa vida". Se por "eu" a gente entende essa voz interna, reflexiva, memoriosa, nostálgica até, essa consciência que reflete sobre o vivido e tenta da experiência forjar algum conhecimento, então para essa voz, (entidade delicada que não se confunde com a coleção de equívocos que chamamos mais comumente de "eu", máscara tecida de aversões e cobiças), então para essa voz interior a vida é veículo, algo em que estamos "dentro", mas que é, ao mesmo tempo, distinto de nós. A vida é então oportunidade. A oportunidade de viver. A oportunidade de ter um corpo.

A propósito, lembro que os anjos dos filmes de Wim Wenders viam tudo em preto e branco (exatamente como Descartes dizia que o mundo era, se abstraíssemos os sentidos). lembro da surpresa e do júbilo desses anjos ao experimentarem a cor, o cheiro, o tato pela primeira vez...

Uma oportunidade, só isso. Não há missão nenhuma, nem prêmio nenhum, nem castigo nenhum. Do pouco que andei conhecendo sobre budismo nos textos e palestras de N.S. Goenka, para Buda o que chamamos de carma não tem nada de meritório. É como uma herança aleatória, um álbum de fotografias deixado por um parente distante. É a memória de um outro que tomamos como nossa. Ou, melhor ainda, um software que já vem instalado nessa máquina que é o corpo, a despeito da nossa vontade.

Se alguma missão há, será aquela que me parece proposta por Cristo: construa uma alma. Não se limite apenas a lutar para extinguir o carma, como propõe o Buda. Isso não é suficiente. Construa uma alma. Algo para além da vida. Porque a vida, a vida mesmo, ela própria já é um sentido. A vida se basta. Mas aproveite a vida para construir uma outra vida, depois desta vida.
Será isso? Não sei...