10 de outubro de 2005
Festa de casamento

Teve um momento na festa do seu casamento, Alberto, em que eu olhei pra você e meus olhos ficaram quentes e úmidos de emoção. Eu olhei pra você e vi minha vida. Você estava lá, de pé, abraçado com o Ivan, ao lado de uma mesa lotada de amigos e eu vi o seu sorriso de felicidade, esse sorriso de menino que eu conheço há trinta anos.

Vocês dois abraçados desse jeito nosso, tão carinhoso, que herdamos todos do seu pai - sim, seu pai estava lá em muitos dos nossos gestos - e eu me vi em você. Meu queixo deu a clássica tremida e eu me segurei para não chorar. Não por vergonha ou discrição, mas para não embaçar os olhos e arriscar perder aquele instante.

Dizer que eu senti a sua alegria é dizer a verdade, mas é ainda dizer pouco. Dizer que eu vi passar um filme de histórias vividas juntos é também não ser exato. Tinha tudo isso na emoção que eu sentia, mas eu olhava você e registrava apenas as expressões do rosto, o brilho dos olhos, o sorriso. Eu estava ali, inteiro no presente, atento.

É difícil explicar o tamanho daquele instante e sua estranha delicadeza. A única frase que me ocorre agora é a mesma que me ocorreu naquela hora, como um mantra: "É a minha vida". Dizer que você e todos os meus amigos deram forma ao que de melhor há em mim, num trabalho de mútua ourivesaria, é repetir o que já sabemos e mais nos orgulha que espanta: somos nossas próprias referências, esculpidas ao longo de uma vida de aventuras e desventuras que são nosso acalanto nas horas de cansaço.

Quando eu olhei para você e vi a minha vida, o que eu senti foi algo mais íntimo, cósmico, inominável. Naquele instante, eu não estava partilhando da sua felicidade. Eu estava vivendo a sua felicidade inteira. Não como você, mas como eu mesmo, eu vivia a felicidade que era sua, só sua.

"Hoje é o dia mais feliz da minha vida", você repetia, enquanto entre nós flutuava, em seu merecido vestido branco, a doce e inefável Sabrina, espalhando a certeza de que vocês serão mesmo felizes para sempre. Estava escrito nos olhos dela e nos seus também. Nenhum outro documento é necessário.

"É o dia mais feliz da minha vida", você dizia. E não era um simples comentário ou lugar-comum que se diz quando nos faltam palavras. Era um voto. Um compromisso com a felicidade, sempre, na alegria e na tristeza.

É a minha vida. Ínfima e magnífica. Continue cuidando bem dela.

Homens se juntam para construir cidades. Gerações e gerações são necessárias para dar à luz um grande homem. Talvez nós, os amigos, estejamos silenciosamente - e sem que sequer o saibamos, para não atrapalhar a meticulosa atenção que a tarefa exige - construindo uma alma. Não apenas nossas almas individuais, mas uma alma comum, uma maneira de ser. Não sei, não posso saber... Ás vezes, sentir é o que basta.