7 de novembro de 2005
Esboço de metafísica

"Impermanência. A primeira impressão que a gente tem da vida e do mundo é que tudo acaba. Percebemos, pela simples observação, pelo simples passar do tempo, que tudo está em movimento, mudando sempre: os dias, as coisas, as pessoas. Mudando sempre até finalmente se extinguir, acabar. Deduzimos desse movimento contínuo, dessa mudança permanente algumas regularidades, que juntamos em leis mais gerais. É isso que muito mais adiante irá ser chamado de ciência."

Vou escrevendo essas notas em uma letrinha miúda e bem talhada para aproveitar ao máximo o papel que me deu o garçom e o tempo que tenho até a chegada de Andréa. Combinamos de almoçar no restaurante em frente à praia, mas para meu pesar, inventaram um ponto final de ônibus entre mim e a paisagem. Pressinto algo de rancoroso na estúpida decisão de colocar ali o ponto, uma forma de proselitismo político pela socialização da feiúra.

"Enfim, a óbvia e imediata impressão é que tudo é finito.
Ao mesmo tempo, quando observamos mais atentamente cada momento, cada coisa ou ser, percebemos que tudo é único, singular. Não existe nada igual no mundo. Esse o primeiro sentido da máxima que se perde nos tempos, e cujo registro mais antigo é atribuído a Parmênides, há 2.500 anos: Tudo é um.
Finitude, mudança e singularidade: isso nos salta aos olhos todo tempo. É como se a finitude fosse o preço que pagamos pela experiência da singularidade."

Faz tempo que não nos encontramos, mas Andréa é dessas amigas com quem a intimidade permanece intacta. Não digo intimidade com o sentido um tanto vulgar de "divisão de segredos", mas como o silencioso prazer de estar junto. A companhia de Andréa me faz bem.
O dia amanheceu nublado e a praia fica linda assim, vazia até do sol, esquecida das gentes, o céu, o mar, a areia e as pedras em sutilíssimas variações de tom do verde ao cinza. Só os ônibus e uns caminhões estacionados do outro lado destoam da paisagem.

"E tudo que é singular e finito parece então se orientar por um único desejo: durar. Durar o máximo possível. Esse talvez o verdadeiro sentido das regularidades que percebemos: constituir uma economia que permita extrair o máximo de rendimento com um mínimo de esforço. Essa Lei do menor esforço é uma formulação mais simples da Lei da inércia e pode ser observada facilmente em tudo, a começar por nós mesmos.
É óbvio que uma tal lei não pode estar subordinada senão a ela mesma. Quero dizer com isso que todo ser ou coisa deve estar apto a reordenar toda sua economia interna de modo a se adaptar às circunstâncias da melhor maneira possível a cumprir seu único objetivo que é seguir durando.
Nesse sentido, todo ser ou coisa é radicalmente livre e não obedece senão aos limites que lhe impõem sua própria natureza de ser ou coisa singular e finita."

Andréa chegou. Um dos meus ínfimos e secretos prazeres é observar de longe as pessoas que gosto. Ela está mais bonita, de cabelo curto e - o que será certamente uma delícia para seus ouvidos femininos - está mais jovem. Uma mulher, uma menina. Fico feliz em perceber que ela vai se inventando, dona de si.

Rapidamente, anoto no papelzinho, antes de colocá-lo no bolso: "Por isso, só duas forças impulsionam o universo: criação e conservação."