14 de novembro de 2005
Medo de amar

Não desprezar nada. Nunca. "Tudo é bom", não me canso de repetir a frase de Glauber que ganhei do Kim. Frase inesquecível porque, quando a me deu de presente, Kim estava se tratando de um câncer.

O mistério reside aí: tudo é bom. É preciso então estar atento. "É preciso estar tento e forte. Não temos tempo de temer a morte." Esses versos são de Gil e Caetano. "Tudo é perigoso. Tudo é divino maravilhoso".

É bem cedo. Há um silêncio de roça lá fora. Um silêncio feito quase que só do cantar dos pássaros e do seu revoar saudando o dia. A impressão que tenho é que para eles todos os dias são o primeiro dia da criação. Todo dia, eles amanhecem com o que me parece ser uma vigorosa vontade de viver cujo nome mais exato talvez seja felicidade.

(Até que um dia eles morrem. Lembro uma vez de estar passando pela sombria avenida Visconde de Albuquerque e de uma de suas árvores tortuosas me cair aos pés um pardal morto)

Um beija-flor chega bem perto da minha janela. Ele é de um azul quase negro e brilhoso e se agita no ar como um minucioso chefe de cozinha que provasse cada prato. Um sol vacilante se esgueira entre as nuvens, cheio de promessas. Já perdi a conta de há quantos dias o Rio está assim, nublado e chuvoso, reflexivo e ensimesmado.

Sinto saudades de você. Começo a sentir assim que digo adeus. Antes, relutava em ficar. Volúvel, indeciso? Não, isso é medo do amor. Afirmo publicamente e por escrito o que desmentirei quando estivermos juntos: medo de amar. Só isso. É, não temos tempo de temer a morte. Mas e o amor, o que fazer dele?

(Bastou uma rápida busca na Internet e Gal já está cantando "Divino maravilhoso" no meu micro. Admirável mundo novo, imensa rede solidária onde cada um está em todos: não desprezar nada sem, no entanto, querer ter tudo)

"Onde há amor, não há morte", me sussurra uma voz e eu nem sequer compreendo bem o sentido disto que escrevo. Nem quero pensar. Quero só escrever para dividir com você, leitor, o que me vem. Sinto vergonha de confessar que tenho medo do amor. Um medo tão pueril, tão sem palavras... "Na sua idade?", me diz outra voz, dura, sarcástica, aniquiladora. A voz que alimenta o medo ao recalcá-lo.

Mas que idade tem alguém quando escreve?

Tenho medo, mas só de dizê-lo esse medo já se esvai, segredo que divido com você, como se dissesse "Eu hoje coloquei pouco sal no arroz..." confessando um erro banal e involuntário. Porque no fundo é só isso, algo banal e involuntário, sem o peso que lhe conferia o sigilo.

Tenho medo, mas isso não me impede de amar. Apenas atrasa um pouco o nosso passo. Mas, também, por que a pressa? Haverá algo mais importante a aprender do que amanhecer como os pássaros?