19 de dezembro de 2005
Epifanias mínimas

Vários amigos me escreveram para dizer que também eles leram livros de bolso. Achei o máximo! Porque na hora nem atinei para o que agora me parece óbvio: aqueles livrinhos eram de fato populares. Eram os folhetins da época. Como eu disse para a Deborah: "o sublime lixo do passado". Gostei da expressão. Talvez porque minhas gavetas estejam cheias dele: pequenos objetos esquecidos e inúteis, mas capazes de detonar memórias vivíssimas e ternas.

Eu falei, na semana passada, de M. L. Estefania, autor de livros de bolso de faroeste, mas o Henrique, a Deborah e a Mazé lembraram de uma outra personagem até mais popular (ainda que eu não a tenha lido): Brigitte Monfort, a espiã que abalou Paris. Ou seria Giselle, sua filha, também espiã, quem abalou Paris? Não tenho tempo agora de conferir nos e-mails que eles mandaram, mas pouco importa a precisão genealógica. Em todos os e-mails o que sobressaía era o mesmo prazer que os livrinhos nos proporcionavam. Eu falei que em mim eles produziam um intenso sentimento de cumplicidade com meu pai. Além, claro, do meu delírio pessoal pelas pradarias do Velho Oeste, entre tiroteios e cavalgadas. Pois todo mundo disse mais ou menos o mesmo. O texto da Deborah resume bem a coisa:

"Quando eu era adolescente, na minha casa circulava uns livrinhos de bolso que eu adorava - não sei o autor, mas a heroína era uma espiã chamada Brigitte Montfort. E ela amava um espião chamado "Número Um" e era linda, usava disfarces maravilhosos (perucas, enchimento nos quadris para parecer mais gorda, lentes de contato) e conseguia a proeza de descansar em 5 minutos (deitava, respirava, "desligava" e estava pronta para nova aventura). Pois essa Brigite hipnotizou minha família inteira por anos! Tios, tias e primos trocavam aqueles livrinhos vagabundos e comentavam os episódios. Durante um tempo aquele era o único território que eu conseguia partilhar com a família."

É exatamente isso que me tranqüiliza quando entro nas livrarias e tomo aquele impacto visual de tantos livros publicados: sempre haverá lugar para mais livros. Bons ou maus. Subliteratura ou clássicos. Tanto faz. Escritores sempre serão necessários. E sempre haverá gente para quem o único sentido da vida será escrever.

Mas, outro dia, tomando café com a Rosalee na Livraria da Travessa, na Ouvidor, fiquei tentando imaginar o título de um livro que ninguém, de fato, jamais tivesse escrito. Um tema nunca abordado. Um título absolutamente original. Saí de lá com aquilo na cabeça - um desafio e tanto.

Pois não é que descobri? "Como andar de bicicleta"! Nunca ninguém escreveu esse livro! Há estantes inteiras dedicadas aos manuais, mas este você jamais encontrará, leitor.

A razão é simples: esse livro não pode ser escrito. Aprender a andar de bicicleta é algo que não se ensina. Uma experiência que não cabe em palavras.

No fundo, era disso que falávamos o tempo todo: de epifanias, dessas epifanias mínimas, íntimas, que todos nós experimentamos ao longo da vida. Ínfimas e inenarráveis.

Talvez seja exatamente por isso que escrevemos tanto: para dar conta do incontável. Para indicar que ele de fato existe. Para cercar o silêncio de palavras calorosas.