20 de fevereiro de 2006
Estamos sós

A violenta reação dos muçulmanos à publicação de charges satirizando Maomé e a aceitação passiva pelo Google das restrições impostas pela ditadura chinesa ao seu mecanismo de busca são dois fatos aparentemente díspares, mas que se conectam de forma assustadora se lhes damos mais atenção.

A coesão e firmeza do totalitarismo muçulmano, que quer impor seu código moral ao mundo e transformá-lo num califado global, contrasta com a cínica complacência com que Google, Microsoft, Yahoo e outras empresas capitalistas têm reagido aos caprichos ditatoriais do governo chinês. O argumento de que estão simplesmente se adequando às leis do país mostra a disposição de jamais se deterem diante de qualquer obstáculo moral quando o lucro imediato estiver ameaçado. Mesmo que a ação presente possa, no futuro, colocar em risco todo o negócio.

Explico: Google, Microsoft, Yahoo são o melhor exemplo dos resultados de uma economia fundada no princípio da liberdade. Graças ao livre mercado, à livre iniciativa, à livre concorrência essas empresas conseguiram passar, em poucos anos, de meros empreendimentos pessoais de fundo de quintal a gigantes da nova economia digital globalizada.

E agora, sem nenhum pudor, sacrificam no altar do lucro imediato o fundamento da sua própria existência: a liberdade. Cedem à pressão de uma ditadura de quinta categoria, desumana e corrupta, que usa sua população imensa para barganhar vantagens e promessas sem lhes dar nada em troca. Aparentemente, o “socialismo” chinês leu Marx apenas para aprender a receita de acumulação de capital do século 19: muito trabalho e quase nenhum salário. Engenharia reversa chama-se o método que, com a complacência do Ocidente, vem dando lucros espantosos – que não saem de lá, até onde sei. A China está abarrotada de dólares e títulos da dívida americana.

Complacência, essa é a palavra. No entanto, toda vez que sacrificamos os dedos para preservar os anéis, que sacrificamos a liberdade em nome do lucro, nos damos mal, muito mal. A Alemanha nazista é o exemplo mais próximo e radical.

Enquanto os totalitários se articulam mundialmente, aqueles que deveriam representar perante os cidadãos do mundo sua alternativa democrática e próspera reagem com sonsa fraqueza à intransigência violenta desses opositores mortais. Sonsa porque mal disfarça a vontade de alcançar com eles um acordo que lhes garanta o sossegado monopólio. Conclusão: o ditador e o grande empresário são sócios potenciais.

Para nós, leitor, isso significa só uma coisa: estamos sós. No conflito entre o indivíduo e o Estado, que marcará o século 21, nós já começamos em desvantagem, isolados e oprimidos. Ou nos articulamos para barrar o avanço do Estado totalitário associado ao capital monopolista ou teremos de nos resignar ao papel de meros pagadores de impostos absurdos.

A resposta mais fácil e imediata é o “consumo ideológico”: só usar produtos de empresas que tenham claros compromissos com a liberdade e a privacidade dos cidadãos. No caso do Google, é hora de buscar mecanismos de busca alternativos. Primeira sugestão (nas próximas crônicas, trarei outras): o Jeeves (http://www.askjeeves.com). Substituir o Orkut (que pertence ao Google) é ainda mais fácil: existem o Multiply (www.multiply.com) e o Friendster (www.friendster.com), e inúmeros outros. Uma alternativa ao Gmail já exige uma pesquisa mais meticulosa, porque não podemos esquecer que Yahoo e Microsoft também não são confiáveis. Por outro lado, quem de fato precisa de dois gigabytes de caixa postal?

Mas não podemos ficar só no consumo ideológico. Precisamos atacar a outra ponta, o Estado. Contra ele só existe uma arma: lhe cortar o oxigênio – no caso, o dinheiro dos nossos impostos.

Mais uma eleição se anuncia, onde seremos convidados a escolher entre nada e lugar nenhum. A menos que apareça um candidato que se comprometa explicitamente a reduzir os impostos à metade tão logo chegue ao poder, melhor anular o voto. Aliás, vale lembrar que, se metade dos eleitores escolherem a anulação, uma nova eleição terá de ser convocada, com novos candidatos no lugar do nada e do lugar nenhum. Quem sabe assim, chegamos em algum lugar.