27 de fevereiro de 2006
Unplugged

- Você não foi ao show dos Rolling Stones?

Não, eu não fui. A esta altura da vida, um show dos Rolling Stones me parece algo tão original e emocionante quanto um discurso de Fidel Castro. Com a única e inestimável vantagem de durar menos do que o papo furado do ex-patrão do Zé Dirceu. A loquacidade do ditador cubano é folclórica. Lembro que, na adolescência, uma amiga gostava de contar o caso de um congresso mundial de estudantes de que ela participara em Havana. Ao fim do evento, a garotada, louca para farrear, foi brindada com um dos intermináveis discursos de Fidel sob a temperatura infernal de um teatro lotado em pleno verão. Enlouquecidos de calor e de tédio, os estudantes foram saindo de fininho, um a um, para mergulhar no monumental chafariz da praça em frente. Fidel ao perceber que a platéia se esvaziava, não se fez de rogado: correu para a praça e continuou seu discurso para os jovens molhados e atônitos.

Não, não fui ao show. Nem sequer me interessei em ouvir as respostas dos Stones para a pergunta obrigatória dos repórteres da Globo a cada passagem deles pelo Brasil: qual o segredo da eterna juventude? Realmente, não me interessa nem um pouco saber como eles conseguem se comportar como saltitantes ameixas albinas numa idade em que a maioria dos seres humanos só pensa em se aposentar. Nesse ponto, Hebe Camargo também teria muito a contar - sem precisar de legendas (Vai ver é isso: Mick Jagger é a Hebe Camargo do rock). Minha única curiosidade é como conseguem repetir o mesmo show durante quarenta anos sem se entediar. É verdade, que Fidel também repete a mesma lenga-lenga a mais ou menos o mesmo tempo e não se cansa. O problema, na verdade, é de quem lhes dá ouvidos.

É difícil ser Rimbaud aos 60 anos. Brian Jones, Sid Vicious, Kurt Cobain seguiram à risca o figurino e morreram cedo. Os Rolling Stones fizeram da rebeldia um bom negócio para empresários gorduchos e prefeitos espertos. Eficientíssimos todos. Estão de parabéns.

Até imaginei que depois do almoço do Bono Vox, outro profissional da rebeldia, com o Lula (mais outro!), os Rolling Stones saíssem do palco direto para um jantar com o Alckmin ou o Serra, em São Paulo. Seria bem a cara deles hoje em dia. Mas não, entre o nada e o lugar nenhum, só Mick Jagger acabou ficando por aqui. Tomara que não tenha arranjado outro filho.

Enfim, o show só comprova a minha tese de que a pior invenção do século 20 foi a amplificação sonora. Nem sequer a bomba atômica supera seus efeitos catastróficos. Sem a amplificação sonora não haveria o fascismo, o vendedor motorizado de pamonha nem 85% dos cantores e cantoras do mundo.

Dá pra imaginar Hitler ou Fidel à capela? Pois é, revolução pra valer é unplugged.