13 de março de 2006
Azáfama

Uma azáfama. Assim está minha casa, por conta de obras. A situação é caótica, tudo virado ao avesso, coberto por uma fantasmagórica camada de pó branco da massa corrida, as coisas todas fora do lugar. Quase impossível cozinhar, tomar banho, lavar roupa, trafegar pela casa. Trabalhar então, nem se fala: é um gesto heróico de sobrevivência. Até mesmo dormir é complicado.

Mas, no íntimo, estou feliz, muito feliz. Aliás, a obra (que na verdade não passa de uma pintura geral e pequenas trocas e reparos) reflete essa felicidade. Ou seja: a felicidade precede a obra. Algo mais vasto se inaugura em mim e exige uma casa de cara nova. É, talvez seja isso...

Por isso, escolhi essa palavra para definir o quadro: azáfama. Olho à volta, olho por dentro e o que vejo e o que sinto cabem direitinho nessa palavra que significa trabalho intenso, agitação, urgência, segundo consta no bom Aurélio.

O dicionário ensina também que "azáfama" vem do árabe, como eu suspeitava, derivada da palavra que designa tropel. Exato, exato! Pronuncio "azáfama" e quase posso ver a elegante tensão dos cavalos. Sempre que me perguntam qual o animal mais belo, não hesito em responder: o cavalo. Nem o gato - ou os felinos, em geral - nem os golfinhos superam o cavalo em imponência e elegância. O cachorro pode ser o "melhor amigo do homem", mas só o cavalo está à altura do homem como quase um igual. Durante séculos (e até hoje na linguagem dos símbolos), o homem completo foi representado pelo cavaleiro em seu cavalo.

E, pensando bem, não é que Azáfama daria um belo nome para uma égua?

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Comprei um hoax. Aliás, outra palavra deliciosa (pronuncia-se rouquis). Significa boato, trote, e no jargão da Internet designa notícia falsa apresentada com toda a pinta de verdadeira. O pessoal do site Cocadaboa (www.cocadaboa.com) é mestre no assunto.

Mas não é que eu comprei um hoax? Escrevi outro dia que, se mais da metade do eleitorado anulasse o voto, nova eleição com novos candidatos teria de ser convocada. Pior, não só escrevi, como andei repetindo isso por aí. Nada mais falso. A legislação eleitoral não prevê nada disso. Pelo contrário, como só se contam os votos válidos, em tese, um sujeito pode ser eleito apenas com o próprio voto.

Aliás, outra falsidade é dizer que os votos brancos vão para a maioria. Segundo a legislação, brancos e nulos são a mesma coisa, isto é, nada. Para anular, portanto, basta votar em branco.

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Também estou me dando conta do quanto é difícil boicotar o Google, como cheguei a propor na mesma crônica, em represália por eles terem cedido às pressões do governo chinês para impor censura às pesquisas feitas na versão chinesa do mecanismo de busca.

Sair do Orkut não é problema, mas todas as alternativas que conheço usam o sistema de anúncios do Google! Há outros mecanismos de busca eficientes, mas como colocá-los na barra do seu navegador? Abrir mão do Blogger, apesar de existirem opções aos montes, pode ser impensável para muita gente.

Enfim, a onipresença das majors da Internet (a trindade pagã Google, Yahoo e Microsoft) soma-se à natural e humana inércia conservadora para quase me convencer a deixar pra lá. Mas ainda não desisti.

Por hora, dois endereços: Google Watch (http://www.google-watch.org) e Scroogle (http://www.scroogle.org).