27 de março de 2006
A visão do porto

Sentia uma vontade imensa de partir a cada vez que sentava diante daquelas janelas que davam para o porto. As janelas nunca eram abertas - para que a temperatura se mantivesse sempre estável, algo como uma eterna primavera; mas os vidros estavam sempre limpos - ou limpos o bastante para não impedir a visão da paisagem.

Toda vez que conseguia escapar para um café na cantina, puxava um dos bancos altos do balcão e se postava numa das janelas de frente para o porto, alheio a todos atrás dele. Aliviados pela distância de seu gigantismo quase cruel, que reduzia os homens a formigas laboriosas e anônimas, os navios apareciam, na moldura da janela, em toda sua elegante imponência. Eram como brinquedos ou animais imensos.

Seus avós haviam chegado todos em navios, fugidos da escravidão da miséria e da falta de esperança. Foram homens enérgicos, anônimos e laboriosos como formigas, que ao aportar não tinham nada. No fim da vida, se não estavam ricos, tinham ao menos o orgulho de ter conquistado a segurança e o conforto para si e para os seus.

Teria sido deles que herdara esse sentimento de estrangeiro que o fazia olhar com indefinível emoção os contornos distantes de um navio ou comover-se quase às lágrimas ao ouvir o lamentoso apito deles ao cruzar a entrada da baía? Talvez - ainda que os velhos declarassem uma arraigada paixão por esta terra. Talvez, no fundo, sempre tivesse sido o estrangeiro que agora, mais do que nunca, se sentia.

Olhava os navios e sentia que chegara a sua hora. Às suas costas, o turbilhão universal das vozes mal deixava adivinhar a língua falada ali. Era a intimidade com o tom e as palavras que lhe permitia deduzir a certeza de um sentido acessível a qualquer esforço mais intenso de atenção.

Mas o aconchego dessa língua tão amada não lhe era mais suficiente, sentia. Ontem à noite, seu melhor amigo, o amigo que cultivara desde a infância e que era como um pedaço dele mesmo, o amigo, o melhor amigo, fora assassinado por um menino dentro do próprio carro, no sinal de um cruzamento do bairro mais rico da cidade, a mulher grávida ao seu lado.

O enterro fora agora à tarde e apesar de seu chefe ter lhe dado folga para acompanhar o velório, depois que tudo se acabara viera quase mecanicamente para o trabalho. Porque não sabia para onde ir. Nunca antes tivera a dimensão tão exata da solidão humana. O peito lhe ardia, mas não haveria mais lágrimas. Queria apenas partir. A morte absurda do amigo, do seu melhor amigo, dera aos últimos acontecimentos do país o contorno definitivo e tudo agora lhe parecia claro, claro demais: não havia mais esperança. O país acabara, não existia mais, era só um arremedo de si mesmo, do que um dia prometera vir a ser. O ódio, travestido de justiça, triunfara.