10 de abril de 2006
Carta de um pai morto para seu filho

Meu filho, meu eternamente amado filho:

Sou teu pai. Posso sentir a angústia que às vezes toma conta do teu peito quando os olhos da tua alma se voltam para o passado. Não se iluda, meu filho. Nada poderia ter sido de outro modo. Acredita em mim, na privilegiada visão que todo morto tem do Tempo: não há razão para culpa ou arrependimento. Fomos todos o melhor que pudemos ser. E há mais mérito nisso do que podem imaginar os vivos. Mas, saiba: se a alguém coubesse dizer "desculpe" e "obrigado", seria a mim, mais do que a ti.

Minha vida foi muito dura, meu filho. Tu sabes. E o pressentias em meus silêncios e logo cedo tiveste o gentil pudor de pouco me interrogar. E se um dia chegaste a sentir vergonha de mim, não te aflijas mais por isso: também eu neguei meu pai em algum momento - e não sem motivo. Repito para que não esqueças: são os pais e são os mortos que devem explicações aos filhos e aos vivos. A responsabilidade - não a culpa! - cabe a quem sabe, ou deveria saber, mais.

Nem sempre é assim. Não há mérito em morrer. A morte não nos torna melhores. Tampouco a vida nos torna melhores. Só o amor, meu filho, nos torna melhores. Por isso eu te agradeço: pelo amor que me deste e pelo amor que despertaste em mim. Sem ti, ele jamais vicejaria. E se às vezes eu não soube estender a precária ponte do meu coração ao teu, não te martirizes por isso. Ao contrário, perdoa.

Já te disse, te acalma: nem eu, nem tu poderíamos ter sido melhores. Mas eu te agradeço por teres sido, de uma maneira secreta e misteriosa até para mim ainda, por teres sido o menino que eu não pude ser. Aquele menino que por 60 anos não pôde fazer outra coisa senão trabalhar, diligente e resignado. O menino tímido e solitário que, à noite, exausto, ainda arranjava tempo para chorar a saudade da mãe.

Sei que não conseguirás ler esta carta sem chorar, esta carta psicografada por ti mesmo. Chora. Será a última vez que choraremos de tristeza. Doravante, estaremos livres. Livres para continuarmos juntos nossa busca. Tu mesmo te surpreenderias com a extensão de nossa linhagem. Somos um e somos muitos de um modo que é impossível explicar aos vivos.

Confia em mim. Confia no amor que nos une e em ti também viceja. Deixa que cresça para que cresça também o menino que queria tudo, menos trabalhar. O menino que sentia saudade da vastidão dos campos e do colo da mãe. O menino que se aventurou e no fim, apesar de tudo e por tudo, pôde dizer para si mesmo: "Fui feliz" e deixou esse mundo num jato de luz.

Fica então, meu filho, com o beijo e o abraço comovido desta alma portuguesa (que também és tu).

Do teu pai, eternamente.