24 de abril de 2006
Online e em mim

E então, uma noite, percebeu que se sentiu sozinho assim que desligou o computador. "O micro", dizia, carinhosamente, como quem se refere a um animal de estimação.

Não foi o súbito silêncio ou a falta da luz pulsante da tela o que lhe pesou, mas o corte da conexão que o mantinha virtualmente amparado por uma legião de seres invisíveis, de quem mal conhecia a voz ou o rosto, mas com quem acabara por tecer uma estranha intimidade, feita quase exclusivamente de palavras lidas e digitadas no ritmo mais ou menos febril de toda boa conversa. Palavras, ícones, abreviações, sinais que, às vezes, combinados, chegavam a compor um código pessoal, afetuoso e secreto entre ele e um outro: liam-se verdadeiramente no que escreviam, como talvez não fossem capazes aqueles de quem se julgavam mais próximos.

Deixou-se ficar no obscuro silêncio, observando o vazio. Nenhuma palavra, nenhuma luz, nenhum som. Que novo e estranho mundo se construía - e tão depressa que era com se sempre tivesse estado aí, comum e imprescindível. E, no entanto, ele era de um tempo em que mal televisão havia. Um tempo tão próximo... Quem era ele, afinal? Ou melhor, o que era isso que durava?

Fechou os olhos e sentiu-se mais próximo de si. O ar entrava e saía pelas narinas, devagar e quase imperceptível, mas todo o seu corpo parecia se expandir aos poucos, penetrando a escuridão e o silêncio lá fora.

Antes, quando estava virtualmente conectado ao planeta inteiro, se sentia concentrado, denso como um buraco negro capaz de tragar tudo ao redor. Agora, voltado para si mesmo, se dilatava, imenso.

Era estranho, sim. Mas não pensava haver contradição alguma nesses movimentos bruscos da alma volátil. Era antes com se ela encontrasse finalmente seu modo mais adequado de ser: "online e em si". A alma - a vasta rede de almas - avançava veloz, em descompasso com o velho e atrasado mundo - o mundo dos jornais e da TV. Fazia tempo que não ligava a TV; fazia tempo que não lia jornais. Estava online. Online e em si, ele estava em toda parte - compartilhando o olhar anônimo de seus semelhantes.

Adormecia. A mente relaxava e ia deixando para trás os últimos limites da lógica. Breve, começaria a sonhar. E então já não saberia contar.