1 de maio de 2006
Noca, o tribalista

Valéria é minha prima. No exercício do parentesco, fomos sempre relapsos, só nos encontrando em missas e enterros. Mas o que o sangue não pôde, a Internet fez: Valéria me descobriu na Rede, passou de parente a leitora e começamos a trocar e-mails regulares.

Revelou-se uma pessoa sensível e atenta, qualidades que certamente também manifestava em seu trabalho: ela era vice de Edino Krieger na presidência do Museu de Imagem e do Som. Era. Há poucos dias, eu soube pelos jornais - e eles também - que os dois foram demitidos pelo novo secretário da Cultura do Rio de Janeiro, o Noca da Portela. Repito: os dois souberam da demissão pelos jornais. Ficaram pasmos.

Eu mesmo pensei que, por força de alguma reforma administrativa à altura do casal Garotinho, a secretaria tivesse mudado de nome e passado a Secretaria da Falta de Educação e Cultura. Mas, não. A secretaria não mudou de nome e o Museu da Imagem e do Som de fato mudou de presidência. Para o lugar deles, dizem os jornais, o Noca escolheu a neta de Cartola e a bisneta do Donga. Está de parabéns. Ao invocar o critério da ancestralidade, Noca dá uma importante contribuição à cultura do nepotismo: reinventou o tribalismo, que muitos davam por extinto.

Nesse passo, espera-se para breve a nomeação da tetraneta de Araribóia para a presidência da companhia das barcas que ligam o Rio a Niterói. A empresa foi privatizada? Não tem problema. A idéia é tão boa que até justificaria a revisão de todas as privatizações, pois, com 500 anos de história, o que não vai faltar é gente para ser nomeada!

Como se vê, Noca, o tribalista, tem tudo para fazer escola. Imagino mesmo que, pela facilidade com que o governo petista se apropria das políticas e projetos alheios, logo o tribalismo alcançará a esfera federal. E aí, as possibilidades serão inumeráveis! Agora mesmo, por que não indicar para a Varig uma sobrinha-neta de Santos-Dumont?

Não duvido nada que, se posto a trabalhar, o aparelho de investigação petista instalado na máquina do Estado logo "descobrirá" que o presidente Lula descende de ninguém menos que de Pedro Alvares Cabral! Pronto, seria o suficiente para justificar, não só a reeleição, como a vitaliciedade de Lula. Afinal, o que é presidência senão um emprego público? Nada mais justo, portanto, que a estabilidade a alcance.

O leitor me corrija se me falha a lógica, obscurecida por súbito entusiasmo cívico, mas, pensando bem, pelos critérios do tribalismo, eu mesmo posso vir a ser, no mínimo, vice-presidente do Museu da Imagem e do Som! Ou não? Claro!

Bem, neste caso, a Valéria vai me desculpar, mas a prudência recomenda parcimônia nas palavras, para que mágoas futuras não venham macular um destino tão nobre. De todo modo, creio ter demonstrado já de forma cabal a importância da contribuição do sr. Noca da Portela à cultura nacional, ao apontar novos rumos à administração pública, rumos esses que misturam, com elegante malemolência, a tradição e a novidade. A modéstia agora me obriga o recolhimento e o silêncio, prudente e obsequioso.