19 de junho de 2006
O Desejo encarnado

Se fosse viva, ela teria feito 80 anos no último dia primeiro de junho. Mas, que eu saiba, nenhum jornal lembrou a data. Talvez por conta da Copa do Mundo. Talvez porque 80 anos seja uma cifra significativa apenas quando se é vivo: mortos só valem quando se tornam centenários.

Eu mesmo só descobri por acaso, já nem lembro como nem porquê, numa dessas pesquisas em que um link vai puxando outro, puxando outro e então, eu que buscava dados sobre a teoria das cores, quando me dei conta, estava lendo a biografia de Marilyn Monroe. Sim, leitor, se fosse viva, Marilyn seria uma velhinha de 80 anos.

No You Tube (www.youtube.com) se encontram dezenas de tributos feitos por fãs anônimos a partir de cenas de filmes e fotos. Assisti comovido a alguns desses tributos - na verdade, clipes caseiros com fundos musicais duvidosos, mas genuinamente apaixonados. Impossível não lembrar do poema de Pessoa que fala do ridículo das cartas de amor: "Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas." É verdade. São fãs que certamente nem pensavam em nascer quando ela morreu em 1962, aos 36 anos de idade. Mas revendo essas fotos, trechos de filmes e cenas da vida real é possível entender porque ela passou de paixão de uma época a objeto de culto.

A chave do entendimento, para mim, está resumida na frase de Ben Hecht, roteirista de sucesso em Hollywood e ghost-writer da autobiografia de Marilyn: "É fácil saber quando ela está falando a verdade. Quando algo verdadeiro sai de sua boca, seus olhos se enchem de lágrimas". Esse o segredo: Marilyn é genuína. Caminhando sempre na fronteira entre a entrega e o abandono, nela não percebemos o menor traço dessa arrogância defensiva a que chamamos de identidade. Marilyn, enfim, era autêntica demais - ou fraca demais - para ser outra coisa senão pura alma.

(O leitor me perdoe, mas lembrei outro de meus versos favoritos, desta vez, de Rimbaud, na tradução brilhante de Ivo Barroso: "Fraqueza ou força: aí estás, é força. Não sabes aonde vais nem por que vais, mas entra em toda parte, aberto a tudo. Não te matarão mais do que se já fosses um cadáver.")

Estamos acostumados a falar em astros e estrelas quando se trata de cinema. Marilyn era uma estrela: tinha luz própria. Literalmente. Sua pele muito branca parece exalar luz a ponto de sempre quase "estourar" os filmes. A intensa generosidade com que ela se expunha, com que se entregava às câmeras tem algo mesmo de sacerdotisa e prostituta. Acho, aliás, que é justamente seu poder de conciliar esses dois termos tão opostos que fez dela uma deusa na imaginação da cultura ocidental. Ela nos confunde a todos, homens e mulheres, por ser, ao mesmo tempo, hipersexual e inocente.

Billy Wilder e John Houston souberam melhor do que ninguém captar a essência primordial e ambígua de Marilyn em dois filmes inesquecíveis: "O pecado mora ao lado" ("Seven years yitch"), de Wilder, e "Os desajustados" ("The misfits"), de Houston. São filmes geniais, presentes em todas as listas de melhores, desses que a gente sente saudade e revê com o mesmo prazer original, de tempos em tempos, para depois conversar sobre eles por horas a fio.

Ali estão as duas faces de Marilyn-Eva: a alegre e a melancólica. Em comum, o mesmo vigor carregado de fé. De certo modo, as duas são uma só personagem, algo como Eva antes e depois da experiência do mundo. Neles, enfim, Marilyn encarna o Desejo, a força natural, misteriosa e terrível, que anima o mundo e os homens, ponto de intersecção entre a alma e o corpo.

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Para quem gosta de pesquisas na Internet, eis alguns links onde encontrar material sobre MM: You Tube (wwww.youtube.com), Wikipedia (www.wikipedia.com), Crime Library (www.crimelibrary.com), Find a grave (www.findagrave.com)