17 de julho de 2006
Organizando o crime organizado

Isso está uma bagunça. Ninguém agüenta mais esse clima de incerteza que tomou conta da relação entre criminosos e vítimas. As pessoas saem cada vez menos de casa e quando saem, não sabem se voltam ou como voltam. Chegou-se ao tal limite do suportável que pode inviabilizar um negócio promissor. Sem dúvida nenhuma, o crime organizado está precisando de um urgente "choque de gestão".

Falta planejamento. As vítimas estão ameaçadas de extinção pelo simples esgotamento físico de seus recursos. E como todo mundo sabe, as vítimas são as únicas responsáveis pela existência dos criminosos. Logo, uma vez extintas as vítimas, os criminosos serão obrigados a buscar outras atividades, certamente levando a maioria a ingressar na política. Mas acontece que a política, como atividade extrativista, também já alcançou o limite da produtividade. Vale lembrar que as vítimas já pagam cerca de 40% do PIB em impostos diversos e Brasília não tem mais onde abrigar os políticos e toda a fauna que lhes é agregada. A ONU inclusive já declarou Brasília área de proteção ambiental. Portanto, mais do que nunca, é preciso preservar o crime. Diversas ONGs já vêm, de fato, se dedicando a esse objetivo, num esforço internacional que conta com o apoio de diversos países.

O primeiro passo é criar a Cosa, a Crime Organizado Sociedade Anônima. Seria o fim do amadorismo. As diversas facções se transformariam em grupos societários e os criminosos seriam profissionais com carteira assinada, formados em cadeias finalmente elevadas à condição de Escola Superior de Crime, Contravenção e Práticas Afins, com verbas públicas e fiscalizadas pelo Ministério da Educação.

No que diz respeito ao relacionamento entre criminosos e vítimas, uma prática que poderia ser imediatamente adotada é o assalto com hora marcada. Imagine o quanto se ganharia em tranqüilidade e eficiência se a vítima pudesse planejar, em parceria com os criminosos, suas contribuições voluntárias para o crime organizado?

Bastaria contratar um call center para o atendimento das vítimas, que depois de uma avaliação detalhada do orçamento doméstico, ligariam para agendar suas contribuições (que bem poderiam ser dedutíveis do Imposto de Renda, em mais uma parceria cívica entre políticos e criminosos!):

- Cosa Brasil, boa tarde!
- Boa tarde. Estou ligando para agendar um assalto.
- Que beleza, mano! (sim, claro, os atendentes da Cosa chamam você de mano naquele tom arrastado dos cantores de rap)
- Qual o seu nome, mano?
- Tomás de Aquino...
- Certo, mano... Estou vendo aqui nos nossos cadastros que você já foi assaltado duas vezes este ano...
- Exatamente.
- Parabéns! Você está com uma pontuação alta no Programa de Pilhagem Pessoal, o PPP, que é o nosso programa de relacionamento com os clientes. Com esses pontos você já está muito perto de umas vantagens promocionais... Por exemplo, se você fizer sua contribuição até às 20 horas de sexta-feira, ganha um passe livre para viajar por todo litoral brasileiro até o fim deste ano sem ser assaltado ou parado na Polícia Rodoviária.
- Puxa! Que bom! Então eu queria agendar um assalto para esta sexta-feira. Pode ser de manhã?
- Claro que pode, mano! Na Cosa quem manda é você! Onde vai ser e a que horas?
- Às oito, aqui na esquina de casa...
- E quanto vai ser? - Eu estava pensando em 100 reais...
- Olha, mano, nesta época do ano, com a aproximação do décimo-terceiro salário, a contribuição mínima é de 120 reais. E no seu caso, para aproveitar a promoção, você teria que contribuir com 150 reais...
- Está bem, está bem... Mas não esquece o recibo, tá?

Já posso ver o sorriso de satisfação do leitor só de imaginar o Brasil assim, um exemplo de organização para o mundo. Mas o leitor pode ficar tranqüilo que neste momento milhares de pessoas trabalham incansavelmente para que a gente alcance esse padrão de excelência. Muitos deles estarão aí em outubro pedindo o seu voto.