Faz algum tempo que pratico meditação. Não, leitor, não me tornei budista. Continuo um mau cristão, desses que quase nada conhecem da Bíblia além de algumas passagens dispersas - no meu caso, um pouco do Evangelho de Mateus, a eletrizante saga de um homem-deus que sai por aí distribuindo milagres e palavras duras, mas amorosas, sintetizadas em um dos textos mais magníficos que já li: o Sermão da Montanha.
A meditação recomenda o cumprimento de algumas poucas regras: não roubar, não mentir, não matar, não se drogar e não praticar sexo bizarro. Convenhamos que, para um mau cristão, são só cinco preceitos, a metade dos Dez Mandamentos! E nem parece tão difícil. De fato, não é - ou, ao menos, não deveria ser.
Mas acontece que, como dizia Vinicius de Moraes, em um verso de profundo alcance metafísico, "o mundo é muito esquisito: tem mosquito." E o Rio vem passando por um inusitado surto de mosquitos. Em toda parte, nos bairros pobres, ricos ou remediados, os mosquitos refugiam-se sorrateiramente nas casas para, à noite, perturbar o sono dos humanos.
E a mim, como já disse, acontece de não poder matá-los. É, não posso matar nem mosquito. Não posso, não. Não devo. O preceito é enfático a ponto da redundância: não matar nenhum ser vivo. O que implica, como o leitor já deve ter intuído, uma dieta vegetariana que exclui até ovos! Mas isso é fácil. Como é fácil tolerar amorosamente formigas, lagartixas, baratas e até certos seres humanos. Desafio mesmo é suportar essa esquisitice da Natureza, o mosquito.
O problema nem é o gosto deles em nos sugar o sangue. Como não tenho alergia às picadas, não me dou conta de que fui ou estou sendo mordido. O que incomoda mesmo é o zumbido. Por isso, aqui estou, no meio da madrugada, zonzo de sono, mas impossibilitado de dormir porque, a cada vez que ameaço adormecer, um mosquito cisma de zumbir em meu ouvido. Ou serão vários? Não sei. Confesso que até tentei matá-lo disfarçadamente, como se por obra de um ato reflexo, inconsciente e indesejado. Fingi, no limite da raiva, para tentar driblar minha consciência. O resultado foi desanimador. Não é fácil matar mosquito e tudo que consegui foi estapear meu próprio ouvido. Ou seja, me vejo agora ocupando sem querer o papel duplamente ridículo de um matador de mosquitos sonso e incompetente.
Mas em vez de remoer minha humilhação, vim usar a Internet para descobrir por que, afinal, zumbem os mosquitos. Saiba o leitor que há várias explicações, mas a considerada mais plausível é também a mais bonita. O mosquito que ouço zumbir em meu ouvido é, na verdade, uma fêmea iludida e apaixonada.
Ela vagava solitária pela noite, fazendo vibrar suas asas num apelo amoroso em busca de um macho para se acasalar. Acontece que nosso ouvido é também uma caixa de ressonância que amplifica e ecoa de volta a súplica como se fosse uma resposta. É quando então ela mergulha, cega de amor, em nosso ouvido. Pobre mosquitinha que, sem saber, repete o drama de Narciso, enamorada da própria imagem! Pobre mosquitinha tão humana! Como poderei agora matá-la? Volto para cama mais tranqüilo e é por pudor que cubro meu ouvido com o travesseiro - porque isso de enganar mulheres não é do meu feitio.