31 de julho de 2006
Narciso

Faz algum tempo que pratico meditação. Não, leitor, não me tornei budista. Continuo um mau cristão, desses que quase nada conhecem da Bíblia além de algumas passagens dispersas - no meu caso, um pouco do Evangelho de Mateus, a eletrizante saga de um homem-deus que sai por aí distribuindo milagres e palavras duras, mas amorosas, sintetizadas em um dos textos mais magníficos que já li: o Sermão da Montanha.

A meditação recomenda o cumprimento de algumas poucas regras: não roubar, não mentir, não matar, não se drogar e não praticar sexo bizarro. Convenhamos que, para um mau cristão, são só cinco preceitos, a metade dos Dez Mandamentos! E nem parece tão difícil. De fato, não é - ou, ao menos, não deveria ser.

Mas acontece que, como dizia Vinicius de Moraes, em um verso de profundo alcance metafísico, "o mundo é muito esquisito: tem mosquito." E o Rio vem passando por um inusitado surto de mosquitos. Em toda parte, nos bairros pobres, ricos ou remediados, os mosquitos refugiam-se sorrateiramente nas casas para, à noite, perturbar o sono dos humanos.

E a mim, como já disse, acontece de não poder matá-los. É, não posso matar nem mosquito. Não posso, não. Não devo. O preceito é enfático a ponto da redundância: não matar nenhum ser vivo. O que implica, como o leitor já deve ter intuído, uma dieta vegetariana que exclui até ovos! Mas isso é fácil. Como é fácil tolerar amorosamente formigas, lagartixas, baratas e até certos seres humanos. Desafio mesmo é suportar essa esquisitice da Natureza, o mosquito.

O problema nem é o gosto deles em nos sugar o sangue. Como não tenho alergia às picadas, não me dou conta de que fui ou estou sendo mordido. O que incomoda mesmo é o zumbido. Por isso, aqui estou, no meio da madrugada, zonzo de sono, mas impossibilitado de dormir porque, a cada vez que ameaço adormecer, um mosquito cisma de zumbir em meu ouvido. Ou serão vários? Não sei. Confesso que até tentei matá-lo disfarçadamente, como se por obra de um ato reflexo, inconsciente e indesejado. Fingi, no limite da raiva, para tentar driblar minha consciência. O resultado foi desanimador. Não é fácil matar mosquito e tudo que consegui foi estapear meu próprio ouvido. Ou seja, me vejo agora ocupando sem querer o papel duplamente ridículo de um matador de mosquitos sonso e incompetente.

Mas em vez de remoer minha humilhação, vim usar a Internet para descobrir por que, afinal, zumbem os mosquitos. Saiba o leitor que há várias explicações, mas a considerada mais plausível é também a mais bonita. O mosquito que ouço zumbir em meu ouvido é, na verdade, uma fêmea iludida e apaixonada.

Ela vagava solitária pela noite, fazendo vibrar suas asas num apelo amoroso em busca de um macho para se acasalar. Acontece que nosso ouvido é também uma caixa de ressonância que amplifica e ecoa de volta a súplica como se fosse uma resposta. É quando então ela mergulha, cega de amor, em nosso ouvido. Pobre mosquitinha que, sem saber, repete o drama de Narciso, enamorada da própria imagem! Pobre mosquitinha tão humana! Como poderei agora matá-la? Volto para cama mais tranqüilo e é por pudor que cubro meu ouvido com o travesseiro - porque isso de enganar mulheres não é do meu feitio.