21 de agosto de 2006
As casas

A tarde mal acabara de cair e as ruas se enchiam de gente igual no cansaço e na pressa. Decidiu ir a pé. Até sua casa não era longe e assim evitaria os vagões lotados do metrô. Uma brisa relutante e morna se insinuava por entre os prédios. Iria a pé. Não estava cansado, não tinha pressa.

Não sabia se era a imaginação que acrescentava à brisa um distante cheiro de mar. Também não sabia se era por tristeza que não enxergava beleza naqueles rostos tão prematuramente envelhecidos, naqueles corpos destroçados. Mas sabia que era falso o sentimento de estar apartado desse mundo.

Ainda que não fosse como eles, esses outros, que vinham cheios de cansaço e pressa, era como eles. Era como eles no essencial sentido da espera, substância de toda esperança.

Fracassara? Talvez. Fosse como fosse, isso significava muito pouco. Haveria de continuar tentando, mesmo sem saber bem porque ou para quê. Importava seguir, como todos, afinal.

Não tinha nenhuma opinião ou comentário que lhe parecesse relevante sobre a vida ou o mundo. Sentia raiva às vezes - como também sentia medo, indiferença, alegria, às vezes. Mas não saberia dizer muito mais sobre a vida ou o mundo. O mundo e a vida nem sequer lhe pareciam próximos do fim, como repetiam alguns, com ares de profeta. Mas se estivessem mesmo à beira do Apocalipse, o que mais ele poderia fazer senão morrer quando chegasse sua hora? Mas antes, não... Não via porque ou para que morrer antecipadamente.

Sentiu que o peito se dilatara e ele bem gostaria de pensar que era para abarcar fraternalmente a imensa solidão da cidade. Sabia que não. Era apenas sua quase invisível solidão que se acomodava, flutuando densa onde antes havia um coração, efeito talvez da lua redonda e luminosa que se elevava no céu. Ou nem isso: sem querer, alargara o passo para acompanhar os outros na pressa do seu cansaço.

Respirou fundo e soltou o ar num longo suspiro. Daquele ponto em diante da cidade, as ruas eram já como parentes seus. Pouco importava quem de fato pensaram ser aqueles homens que ninguém mais sabe quem foram antes de se tornarem nomes de rua - ou parentes seus. Parentes? Sabia mais dessas ruas do que saberia se parentes fossem... Sim, o que sabiam os homens uns dos outros? Mais íntimas lhe eram essas ruas com seus prédios tão cotidianos, tão carnais como se até alma tivessem.

Sim, havia mais densidade na história de um homem do que na de todo um país. O que é um país? Uma abstração desenhada num mapa. E um homem o que é? Uma minuciosa trama de fatos, todos necessários, por ínfimos que sejam. Um misterioso abismo que convida mais ao vôo do que à queda. Era preciso mergulhar, era preciso crer no vôo e não na queda. "Não mergulhar era já um mergulho. Não crer era já uma crença." As casas todas, vibrando sob a lua cheia, o afirmavam.