9 de outubro de 2006
O prazer da canelada

É o prazer da canelada que faz do futebol o esporte mais popular do mundo. Claro, há o gozo do drible, do chapéu, da bola entre as pernas, mas o prazer bretão da canelada é o segredo oculto da popularidade do futebol.

Outros esportes possibilitam o exercício da canelada, mas nenhum outro o propicia com tanta facilidade. Diria mesmo, num trocadilho quadrúpede, que, no futebol, a canelada está sempre à mão. Daí, sua popularidade.

Repito: a jogada de efeito dos raros gênios do esporte é saudada pela maioria não por seu esplendor estético, mas pela explícita humilhação do outro. O craque faz com o adversário aquilo que o torcedor gostaria de fazer com o pai, o patrão, o namorado da bonitona da rua ou o amante da mulher dele. O torcedor, enfim, é um sádico onanista vocal que se contenta em lançar, aos berros, irados perdigotos.

Cá entre nós, leitor, nem sei se acredito nisso, mas às vezes a vocação humana para a estupidez e a perversidade me parece claríssima e irrefutável.

Como é possível um sujeito eleito se dizendo diferente - um reformador moral purificado pela ignorância - tentar agora, quatro anos depois, a reeleição afirmando defensivamente (visto que os seus foram flagrados várias vezes com a mão na massa) que todos são iguais e que é assim que se faz política?

O mais surpreendente é que tenha votos, defensores e ainda se gaste tinta com uma figura dessas, como se fosse ainda digno do crédito de uma discussão sensata. Mas, é fato: 45% dos eleitores se declaram idênticos a ele. Idênticos!

Não se pode alegar - como, aliás, faz o próprio! - desconhecimento dos fatos. Se não bastasse o farto noticiário, ainda houve quem, desde o início, expusesse com minuciosa clareza a impossibilidade de qualquer esperança ou surpresa futura. Meu amigo Ipojuca Pontes, por exemplo, acaba de lançar uma coletânea de artigos e ensaios apropriadamente intitulada "A era Lula: crônica de um desastre anunciado", pela editora A Girafa. Ipojuca, para quem não sabe, é o sujeito mais odiado pelos sem-platéia, aqueles cineastas que conseguem ficar milionários fazendo filmes que ninguém vê. Porque Ipojuca ajudou a acabar com a mamata da Embrafilme. Um ódio que, portanto, quase o santifica.

Desde o primeiro dia do governo Lula, São Ipojuca se pôs a dissecar o gordo batráquio e outros seres do lodaçal imenso. Da política à cultura, nada escapou ao seu olhar de anjo exterminador. Por isso, ao fim da leitura (e à luz dos recentes, mas certamente não os últimos, acontecimentos), só resta uma conclusão: nenhuma ilusão é possível.

Leitura, como se vê, obrigatória para os que ainda vacilam, tentados pela heresia da reeleição - essa instituição nefasta, cujo fim, deve ser o primeiro ato político do próximo governo, seja ele qual for.