6 de novembro de 2006
O silêncio de cada um

"Onde está o seu silêncio?".

Cada um traz dentro de si um silêncio que é seu, singelo e singular como tudo que existe, e o que de mais genuinamente seu cada um possui. Tudo mais nos vem emprestado, sobretudo as palavras. Só o silêncio nos pertence e cada um tem o seu, só seu, que com nenhum outro se confunde.
Silêncio que de início nos assusta, obscuro e vasto na aparência. Mas, como o tempo, se dele nos tornamos íntimos, é onde enfim nos encontramos.

"Meu silêncio é minha ilha, é onde me descubro para além de mim, maior do que eu. Sou grande em meu silêncio porque lá não me chamo Antonio apenas; lá, já nasci tantas vezes, que é supérfluo contá-las: o silêncio ensina que ser homem é já ter sido tudo."

Como soa vaidoso e falso falar do silêncio, como se palavras bastassem, como se sabê-lo bastasse. "Onde está o seu silêncio?" pergunto a mim e a cada um e, em seguida, por dever, me calo. O pouco que disse não apago: vale como prova do inútil que será sempre tentar dizê-lo, assim, diretamente. É preciso estar atento para ouvi-lo.

Sim, porque é desse silêncio que emana cada palavra dita, cada gesto, cada pensamento. E, às vezes, muito poucas vezes, esse silêncio emerge lá do fundo e se mostra, exuberante e bruto, como dor ou como êxtase, não importa - silêncio-flor que se ergue do abismo.

Mas esse silêncio íntimo e singular também se deixa ver em muitas coisas. Então é como, de repente, ver a própria imagem num espelho. É raro, mas reconheço às vezes meu silêncio num quadro ou numa foto; numa paisagem ou numa cena cotidiana; no gesto ou no olhar de outro; num arranjo de flores, num jardim de pedras. Ou surpreendo meu silêncio numa música. É esse o motivo desta crônica, leitor.

Já me acontecera antes - ouvir meu silêncio numa música. Lembro de ouvi-lo em uma pequena peça para piano de Schuman chamada "Romance". Depois, muito mais tarde, me surpreendi de novo face a face com o meu silêncio ouvindo "Ruby, my dear", de Thelonious Monk. Outras músicas terão tocado meu silêncio, certamente. Essas o abarcaram com profundidade e precisão a ponto de jamais esquecê-las.

Mas foi o cubano Israel Lopez Cachao quem inundou de luz o meu silêncio. Meu silêncio que é maior que eu. Pensamos Deus como ordem e necessidade, mas é no acaso que O sentimos. Foi por acaso que encontrei "Si me pudieras querer", de Cachao.

Ouço agora, enquanto escrevo, a comovente delicadeza que resulta desse encontro de violino, piano e flauta; e, assim tão dentro do meu silêncio como nunca antes, não tenho - não quero ter - palavras. Quem cria sabe que não há elogio maior do que uma lágrima.