27 de novembro de 2006
Sobre a raiva

Há raiva por toda parte. Verdadeiras usinas de raiva sendo movimentadas por torcedores, religiosos, políticos, familiares, vizinhos. Gente famosa ou anônima. Raivas públicas e coletivas; raivas individuais e ocultas. Raivas ínfimas e fugazes; raivas centenárias.

Desde cedo, nos ensinam que existe uma raiva justa onde ancorar nossa indignação toda vez que alguém nos ameace a honra, esse nome mais pomposo que se dá ao ego.

Raiva, raiva, raiva. A todo o momento, em toda parte. Contra seres animados e inanimados, humanos e animais, vivos e mortos, presentes e ausentes. Raiva.
E, no entanto, no íntimo, somos tão doces... Meia hora de conversa franca, amorosa e desinteressada e qualquer um já abre o coração e estende a mão ou pede um ombro pra chorar.

Há dentro de nós uma carga de amor imensa e transbordante que é perdão antecipado, saciedade, alegria, gozo. Mas, aparentemente estamos convencidos de que esse amor é a fonte de toda nossa fraqueza. Na verdade, nem sabemos que é amor. Por isso temos medo. Vivemos com medo. Medo de que se alguém nos pedir a túnica, acabemos por lhe dar também o manto. Medo de parecer tolos se formos bons. De acabarmos pobres se formos generosos. Medo do desacato se não formos frios. Medo, enfim, do amor aparentemente infinito que nos habita e pensamos ser fraqueza. E contra esse medo usamos a raiva.

Falo, porque tem acontecido comigo: sempre que eu consigo atravessar a máscara do ego, essa carranca feita de opiniões favoráveis ou contrárias sobre qualquer coisa, o que eu sinto é uma compaixão enorme. Não é pena, mas uma comovida irmandade com tudo e todos.

Confesso que sinto ainda um pouco de vergonha de falar sobre isso assim quase diretamente, sem nem ao menos um certo tratamento literário que lhe acrescente algum estilo. Sinto medo de parecer piegas ou tolo. Um pregador em vez de cronista. Mas é isso que eu vejo e sinto.

Não creio em utopias políticas, não pertenço a nenhuma religião formal, não me interesso por nada que pareça circo ou manada. Só acredito no indivíduo. No indivíduo que toma a si mesmo pela mão, agradece a vida que tem, e humildemente procura Deus dentro de si. Encontrará. E então tudo mais será supérfluo.