1 de janeiro de 2007
Feliz Ano Novo

Saio cedo para passear na primeira manhã do Ano Novo. Chuvisca e as ruas estão vazias e silenciosas. A impressão que tenho é de que o Ano Novo não acordou ainda. Levo para ele minhas melhores esperanças, aquelas de todos os inícios de ano. Afinal, 2007 é ainda uma criança e, pelo visto, preguiçosa e relutante. Deixarei para mostrar minhas angústias e melancolias lá pelo meio do ano, quando então ele já estará maduro para lidar com sentimentos mais ambíguos.

Apesar dessas ruas cansadas, apesar dessa chuvinha miúda que insiste em cair assim igual desde o ano passado, hoje não é dia de se falar em certos assuntos permeados de sombras. Temos um ano inteiro pela frente e hoje é dia de acreditarmos com toda a fé que este será o melhor ano de nossas vidas.

Pouco importa se há ou não motivos para crer. É até preferível que não haja: o sentimento será mais puro, uma espécie de loucura santa que há de amenizar a frustração ou multiplicar a alegria do sucesso imprevisto. Pois, entre a consequência lógica e o milagre, entre a formiga e a cigarra, o sonso coração apenas finge vacilar.

Enfim, não foi por outro motivo que ontem vestimos branco, levamos flores para Iemanjá, pulamos três ondas, partilhamos uma romã ou simplesmente nos demoramos num abraço que queria durar o ano todo. O Ano Novo talvez nem saiba que existe, mas a criança (ou será o anjo?) que nos habita lá no fundo, insiste em viver e não perde uma chance de continuar acreditando no improvável e, com mais gosto ainda, no impossível.

Vai ver até foi essa criança íntima quem inventou o Ano Novo. Para que as suas melhores esperanças não morram de velhice ou tristeza. É, acho que é isso. É minha criança que na primeira manhã bem cedo sai pelas ruas úmidas e silenciosas para encontrar o Ano Novo e lhe dizer: "Eis aqui as minhas melhores esperanças. Este último ano foi muito duro com elas. Veja como estão cansadas e sujas. Por favor, lhes devolva o ânimo e a alegria própria das melhores esperanças para que elas não se confundam com as minhas angústias e melancolias."

Claro, o Ano Novo, uma genuína criança ainda sonolenta, não há de entender metade do que eu disse, mas não terá dificuldade em reconhecer minhas melhores esperanças e tomar-se de compaixão por elas, ao vê-las assim com cara de triste. E fará para elas uma graça qualquer, espontânea e irrisória, mas suficiente para que elas voltem a sorrir, essas desmemoriadas com alma de cão.