8 de janeiro de 2007
Sonhos de menino

O menino se encolhe todo para caber dentro da camiseta. A camiseta é sua casa, sua cama, o útero onde uma vez reinou absoluto. Imóvel, indiferente ao dia que recomeça à sua volta, talvez sonhe. Com o que sonha o menino embaixo da marquise, encolhido como um feto dentro de sua camiseta velha? Queria muito saber. Gosto de ouvir relatos de sonho. Gosto de lembrar dos meus e contá-los aos que me amam e por isso gostam de ouvi-los.

O sono nos iguala, o sonho nos distingue.

Por mais rico que seja um homem, pode até comprar seu sono, mas jamais poderá comprar seus sonhos. Por isso é prudente só contá-los a quem nos ame. Falam mais de nós do que ousamos admitir. Às vezes, mais prudente ainda é esquecê-los. O que, aliás, fazemos com frequência, sábia ignorância de animal que quer apenas sobreviver.

Mas, afinal, o que sonhará o menino? Será feliz em seus sonhos, feliz ao ponto de o sonho lhe oferecer compensação suficiente para a vida de abandono que desfruta sem querer? Sabe-se lá. Os estúpidos e os espertos de todos os gêneros e matizes (ou, retraduzindo em linguagem mais moderna: os políticos e seus eleitores de todos os gêneros e matizes) acreditam ou fingem acreditar que existe uma íntima relação entre felicidade e riqueza. E falam em "justiça social".

Eu, na minha estupidez mais antiquada, concordo com o ditado: dinheiro não traz felicidade. Também não creio que a pobreza compulsória santifique; ao contrário, ela só produz ressentimento. Mas duvido - e nisso me amparo no registro dos fatos passados, o que antigamente se chamava História - duvido que políticos e burocratas, o Estado, enfim, possa ser o promotor do equilíbrio. Desconfio até que ele é a causa principal do problema.

Rimbaud, em seu genial delírio de menino desapaixonado, escreveu, logo na abertura de "Uma estadia no Inferno": "A chave se chama caridade". Ação direta e pessoal, sem intermediários. Eu apenas acrescentaria: renúncia e caridade, pois é preciso abrir mão de ter para dar.

A pobreza do menino me humilha, direta e exclusivamente. E não haverá jamais voto ou imposto que me redima de não ter a coragem, a disposição ou o interesse de olhar em seus olhos e, armado apenas de um sorriso, lhe oferecer um cobertor, um prato de comida, um gesto de carinho.

Não, leitor, não pense que me tornei mais generoso de repente. Continuo egoísta. Mas sem hipocrisia.

* * *

Queria fazer uma rápida homenagem a um sujeito que, sem sequer nos conhecermos, teve uma influência enorme na minha vida. Chamava-se Paulo Perdigão e morreu no fim de dezembro. Crítico de cinema respeitado e tradutor de Sartre, Paulo foi durante décadas o programador de cinema da TV Globo. Devo, portanto, a ele um dos maiores prazeres da minha adolescência e boa parte da minha pouca cultura cinematográfica, pois ele foi certamente o responsável pela exibição dos grandes clássicos do cinema na Sessão Coruja. Dizer "Obrigado, Paulo!" é pouco, mas resume tudo. Sem ele, minha vida teria sido mais pobre e mais triste. Não tenho a menor dúvida que a qualidade do seu trabalho vai garantir-lhe um lugar no céu.